sábado, 30 de julho de 2011

14 – Gárgula

14 – Gárgula

MESES DE AFLIÇÃO SEGUIRAM-SE COM UMA RAPIDEZ ANORMAL, como se uma mão gigante apertasse o botão avançar em um controle-remoto igualmente gigante. O que queria o dono daquela mão gigantesca, só deus sabe. O que eu mais queria era que o tempo passasse mais rápido.

- O tempo não gosta de ser apressado, amor. Quem mais precisa de um tempo é o próprio tempo – disse-me Edward, depois de eu ter esse pensa­mento. Como eu estava me acostumando, deixei isso pairando sem resposta.

Não gostaria de me lembrar, porém, era preciso comparar. Não importa quantos séculos eu viva. A cicatriz da perda de Edward ficará marcada em meu coração petrificado. Uma britadeira fez o trabalho de marcar isso para sempre. A diferença era que Renesmee não foi embora por que quis, definiti­vamente. Não sabemos onde, como, nem quando a veríamos novamente.

Cada vez que Edward me tocava e murmurava “Vai acabar tudo bem”, as bordas do buraco que ocupava meu peito queimavam de maneira insuportá­vel. Pensava quem com a imortalidade o quesito “dor” seria quase inexistente; mas eu estava contando apenas com a dor física. Acho que não me desfiz em pedaços pelo apoio da minha família. E pelo menos não precisava dormir, caso o contrário todos teriam que aturar um festival de gritos descontrolados.

Não podia ser hipócrita. Eu pensava: será que morrer por alguém é sau­dável? (Se usar a palavra “morrer” figurativamente, use “saudável” literal­mente, e vice-versa).

A época mais difícil disso tudo foi o aniversário de Renesmee, um mês depois do sequestro, que foi mais celebrado como um funeral do que um aniversário propriamente dito. Três anos. Nem sei ao certo se ela sabia que era seu aniversário.

Outra pessoa que estava psicologicamente destruída era Alice. Não só apenas por tudo o que aconteceu, mas também por não conseguir ver o fu­turo de Renesmee. Especulamos de todas as maneiras, contudo, Renesmee era imune ao poder de Alice.

Uma coisa me preocupava profundamente: quem quer que tenha feito isso, tinha uma mente brilhante. Chegou bloqueando todos, até Alice e saiu sem deixar rastros. Mas, o que eles teriam a ganhar com isso? Dinheiro não seria, caso o contrário eles já teriam pedido o resgate, e já havia se passado meses. Não havia nenhuma explicação plausível para aquilo. Não havia.

E, se possível, existia outra pessoa que estava pior (muito pior) com isso tudo: Jacob. Os seres humanos ainda não criaram um termo para o estado dele. O mais próximo é decrépito. Aquele Jacob que emanava saúde não exis­tia mais e ele estava degringolando a cada dia. Quando não estava correndo inutilmente pelo país (e até por fora dele) estava sentado num canto, isolado. Ele era como Edward em minha gra­videz: o homem em chamas. Quando “dormia” (aquilo não podia se chamar “dormir”) ele sempre gritava por Renesmee. Para falar a verdade, eu não sabia daquilo, Edward me contava. Eu não resistiria ouvir o pobre Jacob gritando por minha filha. Um vegetal que não queria mais absorver água do solo e fugia da luz solar. Consequência disso era o sofrimento da matilha. Até Rose se so­lidarizava com ele; era impossível não sentir pena. Tive até que colocar meu escudo para pensar algo: eu queria que essa droga de imprinting não exis­tisse. E tenho plena certeza de que Jacob pensou a mesma coisa, nem que seja por um milésimo de segundo. Seth sempre, sempre estava por perto, dando apoio a ele, apesar de suas grossas afirmações sobre não precisar de bebês vigi­ando-o.

Pelo menos Claire e Jasper estavam se dando muito bem. Tinham muito assunto em comum, o que atenuava e nos distraia. Seus principais as­suntos eram a Guerra do México e táticas de luta. Charlie também gostou dela. Tivemos que dizer que ela era uma prima de Alice que também estava no orfanato onde ela viveu. Ao que parecia, a história deu certo.

Para aumentar o círculo de dor, Zafrina havia chegado para dar suas costumeiras aulas para Renesmee e só o que encontrou foi o vazio na casa e em nossos corações. Logo depois, Benjamin e Tia ligaram para Carlisle para perguntar se eu e Edward gostamos do presente (só em pensar eu fiquei ligei­ramente pior) quando ficaram sabendo. Em um dia eles estavam lá, compar­tilhando a dor.

Passei a entender o que os romenos Vladimir e Stefan queriam dizer com “ficar imóveis por muito tempo”. Passei várias semanas, completamente imóvel, em choque. Uma gárgula. Horrenda e totalmente séssil. Não imagi­nava, mas meu coração podia, sim, ficar mais imóvel do que já estava. Come­cei a achar minha pele um pouco mais azeitonada. Cruzes.

- Bella, o que aconteceu? – o rosto de Charlie que contorcia tanto que parecia que ele estava com cólica. Estávamos parados na sala da minha antiga sala, com Charlie esfregando as mãos e prontos para dar a fatídica notícia – Que cara é essa? Edward?

- Charlie... aconteceu algo – apesar do tamanho desespero, Edward con­seguia se manter calmo, e eu tenho certeza de que Jasper, parado a porta, não tinha nada a ver com isso.

- O que? Onde está Nessie? – apesar de aquele apelido me dar nos ner­vos, eu comecei a gostei dele.

- É sobre isso mesmo.

- Ela está bem? – a veia do seu pescoço pulsava desesperadamente. Eu estava vendo-a explodir. Seu rosto ficou vermelho vivo.

- Não posso lhe garantir isso...

- Bella! O que aconteceu? – ele repetiu.

- Pai – choraminguei – Renesmee sumiu.

- COMO ASSIM? – ele se levantou e levou as mãos à cabeça. Agora em seu rosto brotava uma mescla de roxo.

- Ela sumiu pai. Levaram-na.

- Quem? Como assim? – ele começou a chorar. Eu estava para fugir daquela sala.

Edward sussurrou “Jasper”, de uma maneira que Charlie nunca ouviria, e uma áurea de paz tentou penetrar na névoa de dor que pairava no ar. Essa névoa era quase palpável, mas foi se dissipando vagarosamente. Charlie come­çou a voltar à cor normal.

- Charlie, ela foi sequestrada, tudo leva a crer nessa teoria, e nós não temos ideia de quem possa ter feito isso...

- Mas, vocês não são... – ele parou e nos estudou, procurando uma pala­vra – especiais?

- Bem, somos, todavia, ao que tudo indica quem tenha a levado também é...

- E pai, você que vai ligar para a mamãe.

Charlie surtou por mais meia hora.

- Ainda bem que ele decidiu não contar a Renée, pois ela correria até aqui imediatamente. E da próxima vez que formos dá uma notícia como essa, nós levaremos Jasper e Carlisle. Charlie quase teve um infarto – disse Ed­ward já dentro do carro, enquanto pesadas gotas d’água tentavam nocautear nosso vidro.

- Benjamin, meu amigo. Você sabe que não precisa participar de nada, não?

Consegui ouvir enquanto entrava em casa. Estava voltando da casa de Charlie depois de uma frustrada tentativa de me convencer a voltar a minha faculdade imaginária, a fim de “tomar um ar e espairecer”. Ele estava (inutil­mente) patrulhando todos os centímetros de Forks atrás de Renesmee. Tam­bém contatou a polícia de La Push (os lobos eram mais eficientes), de Seattle, de Olympia, de Portland e de tantas cidades que até fez cartazes de “Você viu essa garota?”, afundando-me em nostalgia e tristeza (por me lembrar dos ne­bulosos tempos que, em vez da minha filha, estampada por toda a região no­roeste dos Estados Unidos, descansava ali um lindo menino moreno que eu tanto amava). Durante toda a viagem, Renesmee me seguia, e eu sempre dava uma paradinha, esperançosa de que, uma das meninas de papel fosse a real Renesmee, mas a frase “Você viu essa garota?” destruía todas minhas expec­tativas. Isso fazia meu dia ainda pior. Fazia tanto tempo que aqueles cartazes gritavam para mim que estavam desgastadíssimos, fazendo a tinta escorrer pelos olhos de Renesmee. A chuva deu uma ajudinha, claro. Perecia que ela chorava.

Carlisle estava parado junto com Benjamin e Tia, olhado a floresta. Tudo estava tão cinza e depressivo que eu ficava longe das janelas. O céu olhava-nos tristemente, como uma mancha de café numa mesa branca e reluzente. A chuva batia nas paredes e fazia, para quem ver de dentro da casa, as árvores chorarem. Como eu queria um dia de sol. Só unzinho bastava.

- Claro que sei Carlisle. Porém, assim como na última visita dos Volturi, você tem meu completo apoio.

- E o meu também, é óbvio – Zafrina se pronunciou.

- Obrigado a vocês, mas Benjamin, Amun não ficará... desconcertado? – hesitou Carlisle.

- Isso não importa, não sou o brinquedinho de Amun; faço o que eu bem entender.

- Eu só não quero causar discórdia entre vocês...

- Não se preocupe amigo. Amun entenderá – ele suspirou e sibilou um quase inaudível “Eu espero”.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

13 – Termostato

13 – Termostato

MINHA MENTE TEM UM CONTROLADOR DE SOFRIMENTO.

Era como um botão giratório de um termostato. Ao redor dele sempre teve quatro números: 0, 1, 2, e 3.

Durante toda minha vida, o ponteiro do botão sempre oscilava entre o 1 e 2. Só alcançava o número 3 poucas vezes: no dia da separação dos meus pais, quando Edward foi embora e no parto de Renesmee.

Nunca ele tinha passado disso, primeiramente porque eu não sabia que tinha mais níveis de dor. Segundo porque eu nunca tinha sentido o que eu sentia agora.

Eu não sabia o que era o vazio, não daquele jeito. Já tinha sentido o vazio de várias maneiras, mas nunca, nunca daquela forma.

Se eu estivesse sã, pensaria que eu estava louca, pois não sentia nada. Oca? Era como estar caindo de um precipício que nunca tem fim; não tem dor, medo, aflição, coisa alguma. Eu estava morta de verdade, isso sim é a extinção, nada do que eu vivi se igualava aquilo.

Tinha plena certeza de que o ponteiro beirava a casa do número 6.

Pensava de maneira rápida, mas até que um momento eu caí em mim. Dois vultos pretos me seguravam para que eu não despencasse no chão, como se eu fosse me despedaçar no caso da queda. Eu acho que é impossível descrever como eu estava me sentindo, mas...

- Bella! Bella, por favor, acalme-se – o rosto dele, ou o que eu consegui distinguir de rosto, estava em choque, mas parecia mais preocupado comigo naquele momento.

- Edward! Renesmee, Renesmee, ela foi... não! – uma fúria se propagou pelo meu corpo que fazia em me sentir quente.

- Meu deus! Vou ligar para Alice agora. Se acalme, por favor – com uma voz arranhada ele pegou o telefone rapidamente e já ligava para Alice – Ajude-me, Claire. Alô? Alice?

- Edward, graças a deus – o telefone estava no auto-falante e a voz de Alice estava horrenda – Edward, onde está Bella?

- Está aqui do meu lado.

- ONDE ELA ESTÁ? – eu estava gritando desesperadamente, com uma sensação de que meu estômago tinha se descolado e caído no chão.

- Bella, por favor, acalme-se. Venha agora correndo para cá. Diremos tudo a vocês quando chegarem. DEPRESSA! Edward, não a deixe... – não cheguei a ouvir o final. Corri em disparada para a casa sem me importar em deixá-los estarrecidos e imóveis. Corri como nunca na minha vida, sem olhar para trás, só pensando em chegar à casa de Carlisle e ver minha filha.

Foi uma corrida longa e frustrante, cada segundo parecia um século; eu queria chorar, afogar-me em lágrimas; tinha certeza que ajudaria e a falta desse privilégio humano me fez ficar com mais raiva e tristeza.

Quando vi a enorme casa branca, derrubei a porta, sem ao menos me importar com aquilo, e vi todos os Cullen com cara de pânico – menos os rostos de Carlisle e Emmett.

- Alice, onde ela está?!

- Bella, por favor, acalme-se – ela repetiu pela terceira vez, e isso fez com que eu tivesse vontade de gritar.

- Não, não me peça para eu me acalmar!

- Jasper, rápido! – eu entendi o que ela queria dizer. Senti uma onda de calor subir pelo meu corpo até chegar ao meu cérebro. Percebi que tudo se acalmava, a cor do ambiente se tornava mais clara, os rostos estavam mais ní­tidos, mas minha adrenalina não parava de subir.

- O-obriga-ada Jaspe-er – gaguejei, meio sem jeito. Eu sabia que isso era melhor para todos nós; poderíamos tratar mais claramente do assunto.

Alice não falou enquanto Edward estava ausente. Estava com raiva de tudo, da espera, do silêncio. Por que Edward não vinha correndo, raios!

- Ela está surtando... – murmurou Jasper para Alice.

- Bella, acalme-se – disse Edward entrando pela porta arrombada com cara de pânico; suas linhas faciais estavam rígidas. Claire estava tão atordoada que nem falava.

- Tudo bem Edward – falou Alice – Jasper já a acalmou.

- Alice, nos conte tudo.

- Bem, foi tudo ordinário – ela relatava de modo rápido – Chegamos e Jacob estava aqui esperando por Nessie, nada de diferente. Ela foi para a cabana de vocês com Jacob, dizendo que estava cansada da viagem. Jacob passou por aqui dizendo que ela havia adormecido, e que ia até La Push cuidar do pai. Rose foi até lá chamá-la para irmos ao cinema, mas ela disse que ia depois com Jacob. Nessie estava demo­rando a nos encontrar e Rose foi atrás dela...

- Quando cheguei lá – interrompeu Rose, com uma expressão de de­funto – ela não estava lá, e tinha rastros de um vampiro e de dois...

- Dois? – pressionei.

- Lobisomens – respondeu Alice.

- Co-como assim lobisomens?

- Os reais lobisomens, não como Jacob.

- Carlisle, Emmett e – ela fez uma pausa – Jacob estão atrás dela.

- Jacob? Como ele reagiu?

- Entrou em desespero, se transformou em lobo e disparou para a flo­resta. Carlisle foi logo falar com ele, disse que era para ter calma, que resolve­ríamos tudo. Foi muito difícil; vocês o conhecem, mas no fim, ele aceitou. Convocou o bando e estão agora além da fronteira atrás deles, já que esse vampiro e esses lobisomens souberam muito bem como despistar.

- Mas, não temos ideia que quem tenha feito isso? – perguntou Edward.

- Bella, nós iremos encontrar Nessie, não se preocupe – falou Esme.

- Meu deus; como deixei isso acontecer?

- Não é sua culpa Bella – Esme me consolou – Você não poderia fazer nada.

- Claro que poderia – falei calmamente – Nunca iria deixar que isso acon­tecesse se estivesse aqui...

Aquilo meio que, sem querer, fizesse a culpa se projetar à Alice, pois foi dela a ideia de sair da cidade e não voltarmos todos juntos.

- Desculpe-me Bella – pareceu que ela leu meus pensamentos. Não era Edward que fazia isso? – Foi ideia minha tirar vocês da cidade e...

- Não há o que lhe desculpar Alice. Se tivermos que botar a culpa em alguém, deve ser em quem a levou – Edward contradisse com a voz arrastada. Nunca o vi com aquele rosto duro, como se seu interior tivesse sido arran­cado.

- Como pode? Eu deveria ter tido uma visão... – racionalizou Alice.

Aquela frase me veio como um tsunami. Eu perdi minha menina.

terça-feira, 26 de julho de 2011

12 – Laranja

12 – Laranja

“PASSEI MUITO TEMPO COM CARMELITTA E MAXXIE, MAS NÃO PELO motivo que disse. Estava tramando uma vingança que eles não esqueceriam, mesmo quando forem para o inferno. Não via outra forma de viver sem sangue hu­mano, por isso, matei várias pessoas, mas com pouca frequência. Nas primei­ras décadas, foi apenas isso que me fazia viver: sangue, vingança, morte...

“Enfim, chegou o dia da minha retaliação, mas não se engane, eu não tinha planejado para ser aquele dia. Simplesmente aconteceu, com uma ajudi­nha do destino.

“Max e Carmelitta queriam uma coisa que, vamos dizer, era febre na­quele tempo: poder. Eles haviam lutado contra outros vampiros para ter o poder da região. Aí, aconteceram as batalhas do México” – logo me lembrei da história de Jasper e de como foi horrível aquele período – “Estávamos lu­távamos contra um grupo desavisado (comigo tirando a gravidade ao redor deles e Maxxie e Carmelitta cuidando do resto) quando Carmelitta me ofere­ceu um dos vampiros para eu matar, sendo que isso era raríssimo. Antes disso, indaguei com o vampiro.


“‘Donde vocês são?’, sussurrei ao pobre.


“‘Somos do Norte’, ele conseguiu dizer em meio a uma onda de pânico.

“‘E o que vocês fazem aqui?’

“‘Estávamos fugindo de um grupo de vampiros que estavam massa­crando todos em uma cidade a quinze quilômetros daqui’. Aquilo logo fez as engrenagens do meu cérebro ligarem em velocidade máxima. Matei o pobre vampiro rapidamente.

“Depois de sairmos e deixarmos uma listra roxa no céu, como uma man­cha de tinta derramada num pano preto brilhante, disse que precisava ca­çar. Fui sozinha até essa cidade que o vampiro disse. Chegando lá, encontrei o bando farejando algo, provavelmente eu, então tirei a gravidade deles Eram sete vampiros adultos, com aparência bem forte, porém, contra eu poder, força era inútil.

“‘O que diabos é que está acontecendo?’, gritou um. Fui até o campo visual deles e falei.

“‘Olá senhores. Meu nome é Claire’

“‘O que você quer? Você é uma Volturi?’, presumiu outro, arregalando os olhos.

“‘Não, não sou uma Volturi. Venho em paz, não quero uma luta. Pelo menos, não comigo

“‘Se você não quer lutar, solte-nos!’

“‘Ainda não. Vou direto ao ponto. Eu quero que vocês acabem com dois vampirinhos incômodos’, eles ficaram pasmos.

“‘Como assim?’, o maior falou.

“‘É simples como vocês ouviram. Vocês chegam, vocês lutam, vocês matam’

“‘E o que nós ganhamos?’, falou um dos porta-vozes do grupo.

“‘Ora, vocês não gostam de uma boa briga?’

“Dei todas as instruções para eles. Esperei silenciosamente meus novos amigos chegarem. Carmelitta até indagou o porquê de eu estar tão quieta. Tratei de levar a conversa a rumos menos explícitos. Quando o bando atacou, Max gritou o que ele sempre gritava quando atacávamos ou éramos atacados:


“‘Claire, agora!’, essa era minha deixa. O veneno em minha boca esquen­tou com a projeção da vingança.


“‘Hoje não, nem nunca mais”


“‘Claire, rápido’, esperneou Carmelitta, enquanto era agarrada por três deles.


“‘Claire, cadê sua humanidade? Você sempre nos ajudou e essa vida nunca tirou sua humanidade!’, gritou Max.


“‘Maxxie, querido. Existe algo mais humano do que a morte?’


“Ele nem teve o trabalho de responder.


“Tirei a gravidade dos meus velhos amigos e eles foram massacrados rapidamente. Deliciei-me com o brilho dos rubis apagando lentamente...”

- Nossa. Claire...

- Eu sei, eu fui um monstro. Mas deixe-me terminar logo isso.

- Não, se você não quiser contar, não tem problema... – fiquei envergo­nhada em pensar que estava pressionando algo que ela não queria se lembrar (eu não iria querer).

- Não, eu gosto de contar. Fico mais forte vendo como eu fui vingativa. Isso me faz pensar como uma ação pode desencadear um enorme problema. Uma bola de neve. Ver nossos erros nos ajuda a melhorá-los.


“Depois de terminar o que eu passei anos tramando, fiquei vagando pela América Central e do Norte com esse novo bando. É claro que eles se interessaram por mim, quem não se interessaria... Ficamos juntos até o dia de uma enorme batalha no México. Eu me lembro bem do parceiro de Alice, o louro. Ele lutava com uma mulher e um bando de recém-criados. Acho que ele não se recorda de mim, mas eu nunca poderia esquecer-me do vampiro que me impressionou tanto enquanto lutava. Já estava me cansado daquela vida, me sentindo um objeto que ganhava importância apenas quando vinham inimigos contra nós, então fugi daquele pandemônio antes de me envolver irreversi­velmente, deixando para trás meu novo bando. Um dia, quando minha gar­ganta queimava bravamente, decidi não matar nenhum humano. A única coisa viva há quilômetros era uma vaca. Bebi seu sangue e percebi que aquilo me saciava, não completamente, todavia, fazia-me mais ‘humana’.


“Fui seguindo o rastro de vacas, como eu costumava chamar. Sempre ia onde elas estavam. Foi em uma dessas buscas que encontrei Mary e Roberto. E aqui estou eu” – ela deu um rizinho sincero.

- Oh, Claire, que história. Eu... sinto muito.

- Não sinta. Eu já senti o suficiente pelo resto da eternidade.

O resto da eternidade. Podia até ver uma listra roxa, rasgado o céu azul do Panamá enquanto Edward dava um suspiro de concordância.

Quando chegamos à terra firme, o sol estava alto e as ruas movimentadas, o que fazia com que nossa atenção perante aos humanos triplicasse, pois todos estavam olhando para nós enquanto passávamos, seja por nossa aparência rí­gida e fria, ou por nós estamos usando roupas compridas num país tropical (Edward queria usar a história de atores, mas eu não ia aguentar ouvir tudo aquilo novamente). Pegamos um táxi em direção ao aeroporto de forma bem incômoda; queria mesmo era correndo, seria bem mais emocionante e rápido, bem mais rápido. Depois de quarenta minutos em um trânsito congestionado (em comparação à Forks, aquilo era um caos), chegamos ao aeroporto com meia hora de antecedência em relação ao voo.

Depois de rodarmos o aeroporto de cabo a rabo, termos que explicar aos atendentes que não tínhamos malas (o que os deixou bem intrigados) e comprarmos passagens para Claire, fomos para nosso avião. Estava apreen­siva para chegar à Forks, ver minha filha e sair daquele pesadelo que se pas­sou.

O voo demorou a passar. Depois de uma hora de viagem até Nova York, tivemos uma turbulência bem grande, o que fez com que todos os pas­sageiros, menos nós, ficassem assustados. Estava escutando música enquanto Edward estava vendo o filme Laranja Mecânica, sempre com comentários sobre o psicológico e brilhante filme, mesmo sabendo que eu estava escutando nada. Desta vez, lembrei-me de piscar infinitas vezes por minuto, mexer-me de vez em quando, não parecer uma estátua de mármore ou um defunto enquanto vários olhares curiosos se voltavam para nós, se bem que eu era mesmo uma morta, tecnicamente. O rosto de Edward piscava “Somos atores”. O meu pis­cava “Quero sair daqui”.

Quando saímos de Nova York com destino à Forks, tivemos bem me­nos pessoas no voo (quantas pessoas deixariam o centro capitalista mundial para a cidade que não está inundada por um milagre?) e as poucas pessoas que estavam (mais precisamente quatro), dormiam profundamente, o que fazia com que não precisássemos no mexer nem nada, um alívio.

- Que estranho – sussurrou Edward, já em Forks, enquanto ligava o celular.

- O quê?

- Tem vinte e três mensagens de voz na caixa de mensagens, e todas da Alice – seu rosto se contorcia enquanto falava.

- Será que aconteceu alguma coisa? Vai ver ela só queira saber se já saí­mos de lá, você sabe como ela é exagerada – Claire deu uma risadinha. O exa­gero de Alice era evidente até para ela, que não teve a sorte de presenciar o que eu presenciei. Senti uma pontada de inveja.

- É verdade, mas vou ouvir-las – ele discou o número do correio de voz e escutou. Já que não estava no alto-falante, ouvi apenas sussurros. Seu rosto ficou rígido, petrificado era a palavra melhor, comecei a me preocupar e fiquei nervosa.

- O que aconteceu? – estava quase gritando, com uma voz muito aguda.

- É melhor você mesma escutar – ele disse sombriamente, com uma voz de defunto, e apertou o botão auto-falante.

Era a voz de Alice, mas estava muito curta e cansada, como se ela ti­vesse chorado a noite toda. Claire me olhava estranhamente.

Edward. Precisamos falar muito com você e Bella. Aconteceu uma coisa terrível. A... a... meu deus. Bella se você estiver ouvindo, por favor, controle-se. Nós já estamos ten­tando resolver tudo isso – ela suspirou e falou com uma voz vinda do fundo de um poço ou até mesmo de uma cova; meu coração parecia gelatina sobre uma chapa exposta ao sol – Renesmee sumiu.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Férias!

Como podem perceber, Solstício está de férias! Em breve voltaremos com muito mais, e surpresas virão. Fiquem de olho...