sábado, 30 de julho de 2011

14 – Gárgula

14 – Gárgula

MESES DE AFLIÇÃO SEGUIRAM-SE COM UMA RAPIDEZ ANORMAL, como se uma mão gigante apertasse o botão avançar em um controle-remoto igualmente gigante. O que queria o dono daquela mão gigantesca, só deus sabe. O que eu mais queria era que o tempo passasse mais rápido.

- O tempo não gosta de ser apressado, amor. Quem mais precisa de um tempo é o próprio tempo – disse-me Edward, depois de eu ter esse pensa­mento. Como eu estava me acostumando, deixei isso pairando sem resposta.

Não gostaria de me lembrar, porém, era preciso comparar. Não importa quantos séculos eu viva. A cicatriz da perda de Edward ficará marcada em meu coração petrificado. Uma britadeira fez o trabalho de marcar isso para sempre. A diferença era que Renesmee não foi embora por que quis, definiti­vamente. Não sabemos onde, como, nem quando a veríamos novamente.

Cada vez que Edward me tocava e murmurava “Vai acabar tudo bem”, as bordas do buraco que ocupava meu peito queimavam de maneira insuportá­vel. Pensava quem com a imortalidade o quesito “dor” seria quase inexistente; mas eu estava contando apenas com a dor física. Acho que não me desfiz em pedaços pelo apoio da minha família. E pelo menos não precisava dormir, caso o contrário todos teriam que aturar um festival de gritos descontrolados.

Não podia ser hipócrita. Eu pensava: será que morrer por alguém é sau­dável? (Se usar a palavra “morrer” figurativamente, use “saudável” literal­mente, e vice-versa).

A época mais difícil disso tudo foi o aniversário de Renesmee, um mês depois do sequestro, que foi mais celebrado como um funeral do que um aniversário propriamente dito. Três anos. Nem sei ao certo se ela sabia que era seu aniversário.

Outra pessoa que estava psicologicamente destruída era Alice. Não só apenas por tudo o que aconteceu, mas também por não conseguir ver o fu­turo de Renesmee. Especulamos de todas as maneiras, contudo, Renesmee era imune ao poder de Alice.

Uma coisa me preocupava profundamente: quem quer que tenha feito isso, tinha uma mente brilhante. Chegou bloqueando todos, até Alice e saiu sem deixar rastros. Mas, o que eles teriam a ganhar com isso? Dinheiro não seria, caso o contrário eles já teriam pedido o resgate, e já havia se passado meses. Não havia nenhuma explicação plausível para aquilo. Não havia.

E, se possível, existia outra pessoa que estava pior (muito pior) com isso tudo: Jacob. Os seres humanos ainda não criaram um termo para o estado dele. O mais próximo é decrépito. Aquele Jacob que emanava saúde não exis­tia mais e ele estava degringolando a cada dia. Quando não estava correndo inutilmente pelo país (e até por fora dele) estava sentado num canto, isolado. Ele era como Edward em minha gra­videz: o homem em chamas. Quando “dormia” (aquilo não podia se chamar “dormir”) ele sempre gritava por Renesmee. Para falar a verdade, eu não sabia daquilo, Edward me contava. Eu não resistiria ouvir o pobre Jacob gritando por minha filha. Um vegetal que não queria mais absorver água do solo e fugia da luz solar. Consequência disso era o sofrimento da matilha. Até Rose se so­lidarizava com ele; era impossível não sentir pena. Tive até que colocar meu escudo para pensar algo: eu queria que essa droga de imprinting não exis­tisse. E tenho plena certeza de que Jacob pensou a mesma coisa, nem que seja por um milésimo de segundo. Seth sempre, sempre estava por perto, dando apoio a ele, apesar de suas grossas afirmações sobre não precisar de bebês vigi­ando-o.

Pelo menos Claire e Jasper estavam se dando muito bem. Tinham muito assunto em comum, o que atenuava e nos distraia. Seus principais as­suntos eram a Guerra do México e táticas de luta. Charlie também gostou dela. Tivemos que dizer que ela era uma prima de Alice que também estava no orfanato onde ela viveu. Ao que parecia, a história deu certo.

Para aumentar o círculo de dor, Zafrina havia chegado para dar suas costumeiras aulas para Renesmee e só o que encontrou foi o vazio na casa e em nossos corações. Logo depois, Benjamin e Tia ligaram para Carlisle para perguntar se eu e Edward gostamos do presente (só em pensar eu fiquei ligei­ramente pior) quando ficaram sabendo. Em um dia eles estavam lá, compar­tilhando a dor.

Passei a entender o que os romenos Vladimir e Stefan queriam dizer com “ficar imóveis por muito tempo”. Passei várias semanas, completamente imóvel, em choque. Uma gárgula. Horrenda e totalmente séssil. Não imagi­nava, mas meu coração podia, sim, ficar mais imóvel do que já estava. Come­cei a achar minha pele um pouco mais azeitonada. Cruzes.

- Bella, o que aconteceu? – o rosto de Charlie que contorcia tanto que parecia que ele estava com cólica. Estávamos parados na sala da minha antiga sala, com Charlie esfregando as mãos e prontos para dar a fatídica notícia – Que cara é essa? Edward?

- Charlie... aconteceu algo – apesar do tamanho desespero, Edward con­seguia se manter calmo, e eu tenho certeza de que Jasper, parado a porta, não tinha nada a ver com isso.

- O que? Onde está Nessie? – apesar de aquele apelido me dar nos ner­vos, eu comecei a gostei dele.

- É sobre isso mesmo.

- Ela está bem? – a veia do seu pescoço pulsava desesperadamente. Eu estava vendo-a explodir. Seu rosto ficou vermelho vivo.

- Não posso lhe garantir isso...

- Bella! O que aconteceu? – ele repetiu.

- Pai – choraminguei – Renesmee sumiu.

- COMO ASSIM? – ele se levantou e levou as mãos à cabeça. Agora em seu rosto brotava uma mescla de roxo.

- Ela sumiu pai. Levaram-na.

- Quem? Como assim? – ele começou a chorar. Eu estava para fugir daquela sala.

Edward sussurrou “Jasper”, de uma maneira que Charlie nunca ouviria, e uma áurea de paz tentou penetrar na névoa de dor que pairava no ar. Essa névoa era quase palpável, mas foi se dissipando vagarosamente. Charlie come­çou a voltar à cor normal.

- Charlie, ela foi sequestrada, tudo leva a crer nessa teoria, e nós não temos ideia de quem possa ter feito isso...

- Mas, vocês não são... – ele parou e nos estudou, procurando uma pala­vra – especiais?

- Bem, somos, todavia, ao que tudo indica quem tenha a levado também é...

- E pai, você que vai ligar para a mamãe.

Charlie surtou por mais meia hora.

- Ainda bem que ele decidiu não contar a Renée, pois ela correria até aqui imediatamente. E da próxima vez que formos dá uma notícia como essa, nós levaremos Jasper e Carlisle. Charlie quase teve um infarto – disse Ed­ward já dentro do carro, enquanto pesadas gotas d’água tentavam nocautear nosso vidro.

- Benjamin, meu amigo. Você sabe que não precisa participar de nada, não?

Consegui ouvir enquanto entrava em casa. Estava voltando da casa de Charlie depois de uma frustrada tentativa de me convencer a voltar a minha faculdade imaginária, a fim de “tomar um ar e espairecer”. Ele estava (inutil­mente) patrulhando todos os centímetros de Forks atrás de Renesmee. Tam­bém contatou a polícia de La Push (os lobos eram mais eficientes), de Seattle, de Olympia, de Portland e de tantas cidades que até fez cartazes de “Você viu essa garota?”, afundando-me em nostalgia e tristeza (por me lembrar dos ne­bulosos tempos que, em vez da minha filha, estampada por toda a região no­roeste dos Estados Unidos, descansava ali um lindo menino moreno que eu tanto amava). Durante toda a viagem, Renesmee me seguia, e eu sempre dava uma paradinha, esperançosa de que, uma das meninas de papel fosse a real Renesmee, mas a frase “Você viu essa garota?” destruía todas minhas expec­tativas. Isso fazia meu dia ainda pior. Fazia tanto tempo que aqueles cartazes gritavam para mim que estavam desgastadíssimos, fazendo a tinta escorrer pelos olhos de Renesmee. A chuva deu uma ajudinha, claro. Perecia que ela chorava.

Carlisle estava parado junto com Benjamin e Tia, olhado a floresta. Tudo estava tão cinza e depressivo que eu ficava longe das janelas. O céu olhava-nos tristemente, como uma mancha de café numa mesa branca e reluzente. A chuva batia nas paredes e fazia, para quem ver de dentro da casa, as árvores chorarem. Como eu queria um dia de sol. Só unzinho bastava.

- Claro que sei Carlisle. Porém, assim como na última visita dos Volturi, você tem meu completo apoio.

- E o meu também, é óbvio – Zafrina se pronunciou.

- Obrigado a vocês, mas Benjamin, Amun não ficará... desconcertado? – hesitou Carlisle.

- Isso não importa, não sou o brinquedinho de Amun; faço o que eu bem entender.

- Eu só não quero causar discórdia entre vocês...

- Não se preocupe amigo. Amun entenderá – ele suspirou e sibilou um quase inaudível “Eu espero”.

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