sexta-feira, 8 de julho de 2011

11 – Clichê

11 – Clichê

SAÍMOS DEPOIS DE UMA DEMORADA DESPEDIDA DE CLAIRE E SEUS PAIS. Eles são muito fortes, pensei comigo mesma, e percebi que Edward concordou. Estava me perguntando o porquê de Claire não está levando malas. Edward respon­deu: “Alice disse que tudo que ela precisa, já está em Forks”. Alguém tem al­guma dúvida?

A viagem de lancha foi bem tranquila; conversamos sobre tudo o que se pode imaginar: como o clima naquele país era diferente; o que faríamos quando chegarmos à nossa bolha d’água, Forks; até quem deveria ganhar o Oscar esse ano. Olhei para trás e agradeci estar me distanciando da Ilha Bella. Não queria voltar lá tão cedo, mesmo sendo uma gentileza imensurável dos Cullen nos presentear com uma ilha (eu juro solenemente que nunca me acostumarei com essa ideia, amém).

- Claire, me conte como você se tornou uma vampira?

- É uma história não muito feliz. Você quer ouvi-la?

- Só se você quiser contar.

- Claro que eu quero – ela deu uma pequena pausa, pegando fôlego, e começou:

“Bem, eu me transformei em plena Revolução Francesa. Morava na França com meus pais e dois irmãos. Éramos bem felizes e vivíamos bem.

- Desculpe interromper, mas você não tem o sotaque francês – isso era mais uma observação que uma pergunta.

- Perdi-o há muito tempo, quando ainda estava com Carmelitta e Max – juntei as sobrancelhas – Você entenderá adiante.

“Fazíamos parte do Segundo Estado, ou seja, a Nobreza, mas nunca fomos vistos com bons olhos, pois nossa nobreza era togada.

- O que é isso?

- Quer dizer que compramos o título de nobreza, adquirindo um cargo público a serviço do Rei, então, não tínhamos a linhagem pura. Mesmo assim, éramos respeitados.

“Nós éramos, apesar do status, jacobinos. Fazíamos parte do “Partido da esquerda” e lutávamos contra o Rei, mas isso era omitido e velado. Para toda a sociedade, éramos os mais nobres girondinos, o partido aliado ao Rei. Nosso único problema foi guerra dos jacobinos versus girondinos. Meu pai e meu ir­mão mais velho, que tiveram que lutar pelos girondinos, não queriam que ficássemos no país durante aquele caos. Mi­nha mãe, meu irmão menor e eu tivemos que fugir; meu pai não queria que nos misturássemos àquela baderna. Creio que eles foram mortos nos dias de ‘Terror’, que foi quando os jacobinos assumiram o poder e mataram todos os opositores e traidores da revolução.

“Mas antes disso, eu estudava Artes Cênicas. Meu sonho era ser uma atriz de sucesso, mas minha mãe nunca apostou alto em mim. Sem beleza, que­rida, você não vai longe, ela dizia, porém, eu não queria, ou melhor, não precisava desse ‘dom’ para chegar aonde eu almejava. Queria conseguir tudo com meu trabalho e esforço.

“Minha mãe era uma estilista bem conceituada na cidade e meu pai era sócio de uma fábrica de calçados. Sempre estudávamos, eu e meus irmãos, em boas escolas. Fui ‘cortejava’, assim posso dizer com o palavreado da época, por poucos rapazes. Nunca fui a rainha da beleza, nem da popularidade, mas alguns me consideravam bonita. Eu particularmente não me importava muito com isso. Não queria casar, ter filhos nem nada. Meu objetivo principal era ser famosa e reconhecida pelo o que eu faria. Sabia que a fama sempre deixa as pessoas mais bonitas? Era assim que eu pensava, e não deixa de ser ver­dade.

“Aí chegou a bendita revolução, acabando com todos meus sonhos e separando minha família. Lembro-me muito bem de nós fugindo da França sem ao menos saber onde aquele maldito navio – era assim que minha mãe o chamava – iria parar. Pegamos o primeiro navio sem saber o des­tino, deixando meu pai e meu irmão para trás, lutando para o Rei se tornar mais poderoso. Vocês devem imaginar o que eu passei.

Nesse momento eu entendi a gravidade da situação. Nem parecia que um rosto tão jovem sofrera tanto na vida.

- Quando atracamos, estávamos no México. Tínhamos algum dinheiro, sim, mas nenhum conhecido, nem ideia do que faríamos naquele país de povo e língua estranha. Com o colapso que a revolução, os preços dos produtos estavam altíssimos, e ninguém se interessava muito em andar na moda naque­les tempos nebulosos, ou seja, minha mãe ficou sem emprego, sem dinheiro, sem marido, sem filho e sem casa. Fomos morar em uma pequena pensão abandonada, essa era a melhor maneira de caracterizar aquele lugar. Abando­nado.

“Um dos principais problemas dessa pensão era a água. Tínhamos que andar quase um quilômetro para buscar água em um poço, já que lá não havia encanamento. Acho que era por isso que ela era abandonada, mas, na condi­ção que estávamos, aquilo era um luxo.

“Minha mãe ficou doente depois de um tempo. Eu pensava: Nossa, que baita clichê. Ficamos pobres e nossa mãe adoece. Típico. Não estava mais aguentando viver daquela maneira, mas faz o quê?

“Foi então que em uma noite minha mãe pediu para eu e meu irmão irmos pegar água. Eu iria até protestar, contudo, quando eu a olhei, vi seu rosto pa­recendo papelão molhado. Aquilo me desesperou, e eu não fiz nenhuma obje­ção. Peguei meu irmão pelo braço e fomos pegar água.

“Só que, enquanto estávamos pegando, ouvimos um barulho. Era o barulho de uma árvore sendo partida ao meio. Assustador. Falei para meu irmão correr de volta o mais rápido que ele pudesse. Sendo o que fosse, eu tinha que pegar a água.

“Então eu avistei uma forma branca e esguia parada na minha frente. Ele parecia uma coluna de mármore esquecida no meio daquele inferno, uma coluna maravilhosamente esculpida. Um deus.

“‘Ora, ora, ora. O que temos aqui’; sua voz era tão perfeita quanto o resto do corpo, ‘Como é seu nome, querida?’

“‘Cla-aire’, gaguejei. Era um insulto se dirigir a um deus daquela forma. Sempre achei um clichê aqueles desenhos que, quando os personagens ficam malvados, têm seus olhos vermelhos. Pensei nisso no exato segundo. Aqueles rubis estavam me cegando.

“‘Olá Claire, o que você faz aqui?’

“‘Estou levando água para minha mãe. Ela está doente’

“‘Que pena. E quem era aquele que saiu correndo?’ perguntou ele.

“‘Meu irmão... senhor’, eu só podia chamá-lo daquela maneira.

“‘Chame-me de Maxxie, senhorita’”

Enquanto Claire relatava sua morte, eu me recordei de Jasper contando a dele. É impressão minha ou todos os vampiros são sempre assim, corteses, antes de matar suas vítimas?

- Bem Claire – ele continuou – Eu acho que terei de fazer algo que não será muito agradável... para você, certamente.

“Foi nessa hora que eu percebi. Aquilo não era um deus. Era um demô­nio. Mas eu o queria de qualquer forma, mesmo morrendo de medo. Ele avançou em minha jugular e a mordeu. Foi uma dor imensurável. Minha visão se escureceu e eu quase desmaiei. Só queria que aquilo acabasse. Logo.

“Ouvimos passos fazendo cócegas no chão, e uma voz estrondosa como um raio cortando o silêncio da minha morte.

“‘Maxxie! Não temos tempo!’

“‘Carmelitta, espere mais um segundo’

“‘Não há tempo’, ela parou por um segundo e sussurrou: ‘Eles estão vindo’

“No momento entendi que o quer que seja que estivesse vindo, era muito temido, pois fez o pescoço de Maxxie deslocar-se quando ele virou a cabeça para olhar o rosto petrificado de Carmelitta.

“‘O que eu faço com ela?’

“‘Não temos escolha; deixe-a em algum lugar escondido. Não adiantará muito. O cheiro do sangue dela está por toda parte’

“Maxxie me deixou no meio de uns arbustos próximos ao poço onde pegávamos água. O chão estava frio, mas eu queimava. Parecia estar dentro de uma fornalha. Ouvi levemente meu assassino e sua cúmplice fugindo. Espero que, o que quer que esteja vindo, mate-os, consegui pensar.”

Ela parou por uns cinco segundos, editando a história, com certeza. Fiquei agradecida – não precisaria do relato da transformação. Ele estava muito claro na minha mente para ser recordado agora.

- Bem, depois que eu me transformei, só sentia uma queimação na mi­nha garganta. Era tão insuportável que me fez cometer o maior erro da minha vida. Fui atrás da minha mãe. Não sabia o que fazer, não sabia como estava viva nem o que eu era, ela era a única pessoa que eu tinha.

“Fui correndo como nunca corri, figurativamente e literalmente, já que eu conseguia correr assustadoramente rápido. Senti cheiros novos e deliciosos que faziam minha garganta arder furiosamente, mas não pensei, corri.

“Todavia, quando cheguei à malfadada pensão, minha mãe me olhou e conse­guiu falar ‘Como você está linda, querida!’. Pelo menos por um segundo, ela apostou em mim; decididamente, linda era uma palavra fraca. Uma fera caiu em mim e eu matei minha mãe e meu irmão. Enquanto matava minha mãe, descobri meu poder. Tirei a gravidade ao redor do meu irmão e ele as­sistiu a morte de nossa mãe. Cada gota de sangue deles... Graciosas, doces e carregadas de culpa que carrego até hoje...”

Outra edição. Minha garganta começou a pinicar levemente.

- Decidi depois disso nunca mais matar alguém, o que acabou não se concretizando, por enquanto. Fiquei vagando pela cidade até que senti um cheiro familiar. Não sabia de quem era, mas segui. Fui parar cara a cara com eles: Maxxie e Carmelitta. O ódio me consumiu e me queimou, mais até que o veneno daquele maltrapilho que eu estava prestei a matar. Senti que era mais forte do que ele, mas eu sabia que se eu os matasse, não seria uma vingança verdadeiramente completa. Então, me juntei a eles. Fique perto de seus ami­gos e mais perto ainda de seus inimigos, não? Quando eu apareci, tive a im­pressão de que eles ficaram ligeiramente mais brancos.

“‘Olá, Maxxie’, cuspi o nome quando eu me aproximei. Eles estavam em uma gruta bem longe donde eu havia me transformado, escondidos. Co­vardes.

“‘Claire! O quê? Você não morreu?’

“‘Quem é essa Max?’, perguntou Carmelitta.

“‘É aquela que eu estava consumindo antes de você chegar alertando sobre os Volturi.’, foi a primeira vez que eu ouvi esse nome. Volturi, que belo nome, pensei.

“‘Ah, sim. Vejo que a imortalidade ficou muito bem em você’, ela me olhava de todos os ângulos possíveis.

“‘Não sei se devo agradecer. Bem, já que você’, me voltei para Maxxie, ‘me criou, eu vou segui-lo onde quer que você, ou ao que parece, vocês forem’

“‘Agora eu que tenho que agradecer! Max, nós deveríamos ter criado outro para nos ajudar a séculos!’

“‘Ela só durou por sua causa’, estremeci mentalmente, já que fisica­mente era impossível, ‘Se você não tivesse falado sobre os Volturi, eu tinha matado-a’

“‘Pois, agradeça-me’, disse Carmelitta, com um enorme sorriso bri­lhante.

“‘Você tem algum dom?’, perguntou Maxxie. Respondi da mesma forma que mostrei a você, Bella. Tive vontade de esmagá-los, destruí-los, mas consegui me controlar.

“‘Meu deus! O que você fez?

“‘Eu aparentemente controlo a gravidade’

“‘E você quer mesmo ir conosco?’, vi Carmelitta arregalar os olhos, como se eu fosse uma pedra preciosa que um estrangeiro está para se desfa­zer. Percebi que era por aí que eu deveria começar meu plano.

“‘Sim, eu quero’, respondi enquanto colocava-os de volta ao chão.

“‘Agora sim, você deve me agradecer ajoelhado, Max!’

Nenhum comentário:

Postar um comentário