terça-feira, 26 de julho de 2011

12 – Laranja

12 – Laranja

“PASSEI MUITO TEMPO COM CARMELITTA E MAXXIE, MAS NÃO PELO motivo que disse. Estava tramando uma vingança que eles não esqueceriam, mesmo quando forem para o inferno. Não via outra forma de viver sem sangue hu­mano, por isso, matei várias pessoas, mas com pouca frequência. Nas primei­ras décadas, foi apenas isso que me fazia viver: sangue, vingança, morte...

“Enfim, chegou o dia da minha retaliação, mas não se engane, eu não tinha planejado para ser aquele dia. Simplesmente aconteceu, com uma ajudi­nha do destino.

“Max e Carmelitta queriam uma coisa que, vamos dizer, era febre na­quele tempo: poder. Eles haviam lutado contra outros vampiros para ter o poder da região. Aí, aconteceram as batalhas do México” – logo me lembrei da história de Jasper e de como foi horrível aquele período – “Estávamos lu­távamos contra um grupo desavisado (comigo tirando a gravidade ao redor deles e Maxxie e Carmelitta cuidando do resto) quando Carmelitta me ofere­ceu um dos vampiros para eu matar, sendo que isso era raríssimo. Antes disso, indaguei com o vampiro.


“‘Donde vocês são?’, sussurrei ao pobre.


“‘Somos do Norte’, ele conseguiu dizer em meio a uma onda de pânico.

“‘E o que vocês fazem aqui?’

“‘Estávamos fugindo de um grupo de vampiros que estavam massa­crando todos em uma cidade a quinze quilômetros daqui’. Aquilo logo fez as engrenagens do meu cérebro ligarem em velocidade máxima. Matei o pobre vampiro rapidamente.

“Depois de sairmos e deixarmos uma listra roxa no céu, como uma man­cha de tinta derramada num pano preto brilhante, disse que precisava ca­çar. Fui sozinha até essa cidade que o vampiro disse. Chegando lá, encontrei o bando farejando algo, provavelmente eu, então tirei a gravidade deles Eram sete vampiros adultos, com aparência bem forte, porém, contra eu poder, força era inútil.

“‘O que diabos é que está acontecendo?’, gritou um. Fui até o campo visual deles e falei.

“‘Olá senhores. Meu nome é Claire’

“‘O que você quer? Você é uma Volturi?’, presumiu outro, arregalando os olhos.

“‘Não, não sou uma Volturi. Venho em paz, não quero uma luta. Pelo menos, não comigo

“‘Se você não quer lutar, solte-nos!’

“‘Ainda não. Vou direto ao ponto. Eu quero que vocês acabem com dois vampirinhos incômodos’, eles ficaram pasmos.

“‘Como assim?’, o maior falou.

“‘É simples como vocês ouviram. Vocês chegam, vocês lutam, vocês matam’

“‘E o que nós ganhamos?’, falou um dos porta-vozes do grupo.

“‘Ora, vocês não gostam de uma boa briga?’

“Dei todas as instruções para eles. Esperei silenciosamente meus novos amigos chegarem. Carmelitta até indagou o porquê de eu estar tão quieta. Tratei de levar a conversa a rumos menos explícitos. Quando o bando atacou, Max gritou o que ele sempre gritava quando atacávamos ou éramos atacados:


“‘Claire, agora!’, essa era minha deixa. O veneno em minha boca esquen­tou com a projeção da vingança.


“‘Hoje não, nem nunca mais”


“‘Claire, rápido’, esperneou Carmelitta, enquanto era agarrada por três deles.


“‘Claire, cadê sua humanidade? Você sempre nos ajudou e essa vida nunca tirou sua humanidade!’, gritou Max.


“‘Maxxie, querido. Existe algo mais humano do que a morte?’


“Ele nem teve o trabalho de responder.


“Tirei a gravidade dos meus velhos amigos e eles foram massacrados rapidamente. Deliciei-me com o brilho dos rubis apagando lentamente...”

- Nossa. Claire...

- Eu sei, eu fui um monstro. Mas deixe-me terminar logo isso.

- Não, se você não quiser contar, não tem problema... – fiquei envergo­nhada em pensar que estava pressionando algo que ela não queria se lembrar (eu não iria querer).

- Não, eu gosto de contar. Fico mais forte vendo como eu fui vingativa. Isso me faz pensar como uma ação pode desencadear um enorme problema. Uma bola de neve. Ver nossos erros nos ajuda a melhorá-los.


“Depois de terminar o que eu passei anos tramando, fiquei vagando pela América Central e do Norte com esse novo bando. É claro que eles se interessaram por mim, quem não se interessaria... Ficamos juntos até o dia de uma enorme batalha no México. Eu me lembro bem do parceiro de Alice, o louro. Ele lutava com uma mulher e um bando de recém-criados. Acho que ele não se recorda de mim, mas eu nunca poderia esquecer-me do vampiro que me impressionou tanto enquanto lutava. Já estava me cansado daquela vida, me sentindo um objeto que ganhava importância apenas quando vinham inimigos contra nós, então fugi daquele pandemônio antes de me envolver irreversi­velmente, deixando para trás meu novo bando. Um dia, quando minha gar­ganta queimava bravamente, decidi não matar nenhum humano. A única coisa viva há quilômetros era uma vaca. Bebi seu sangue e percebi que aquilo me saciava, não completamente, todavia, fazia-me mais ‘humana’.


“Fui seguindo o rastro de vacas, como eu costumava chamar. Sempre ia onde elas estavam. Foi em uma dessas buscas que encontrei Mary e Roberto. E aqui estou eu” – ela deu um rizinho sincero.

- Oh, Claire, que história. Eu... sinto muito.

- Não sinta. Eu já senti o suficiente pelo resto da eternidade.

O resto da eternidade. Podia até ver uma listra roxa, rasgado o céu azul do Panamá enquanto Edward dava um suspiro de concordância.

Quando chegamos à terra firme, o sol estava alto e as ruas movimentadas, o que fazia com que nossa atenção perante aos humanos triplicasse, pois todos estavam olhando para nós enquanto passávamos, seja por nossa aparência rí­gida e fria, ou por nós estamos usando roupas compridas num país tropical (Edward queria usar a história de atores, mas eu não ia aguentar ouvir tudo aquilo novamente). Pegamos um táxi em direção ao aeroporto de forma bem incômoda; queria mesmo era correndo, seria bem mais emocionante e rápido, bem mais rápido. Depois de quarenta minutos em um trânsito congestionado (em comparação à Forks, aquilo era um caos), chegamos ao aeroporto com meia hora de antecedência em relação ao voo.

Depois de rodarmos o aeroporto de cabo a rabo, termos que explicar aos atendentes que não tínhamos malas (o que os deixou bem intrigados) e comprarmos passagens para Claire, fomos para nosso avião. Estava apreen­siva para chegar à Forks, ver minha filha e sair daquele pesadelo que se pas­sou.

O voo demorou a passar. Depois de uma hora de viagem até Nova York, tivemos uma turbulência bem grande, o que fez com que todos os pas­sageiros, menos nós, ficassem assustados. Estava escutando música enquanto Edward estava vendo o filme Laranja Mecânica, sempre com comentários sobre o psicológico e brilhante filme, mesmo sabendo que eu estava escutando nada. Desta vez, lembrei-me de piscar infinitas vezes por minuto, mexer-me de vez em quando, não parecer uma estátua de mármore ou um defunto enquanto vários olhares curiosos se voltavam para nós, se bem que eu era mesmo uma morta, tecnicamente. O rosto de Edward piscava “Somos atores”. O meu pis­cava “Quero sair daqui”.

Quando saímos de Nova York com destino à Forks, tivemos bem me­nos pessoas no voo (quantas pessoas deixariam o centro capitalista mundial para a cidade que não está inundada por um milagre?) e as poucas pessoas que estavam (mais precisamente quatro), dormiam profundamente, o que fazia com que não precisássemos no mexer nem nada, um alívio.

- Que estranho – sussurrou Edward, já em Forks, enquanto ligava o celular.

- O quê?

- Tem vinte e três mensagens de voz na caixa de mensagens, e todas da Alice – seu rosto se contorcia enquanto falava.

- Será que aconteceu alguma coisa? Vai ver ela só queira saber se já saí­mos de lá, você sabe como ela é exagerada – Claire deu uma risadinha. O exa­gero de Alice era evidente até para ela, que não teve a sorte de presenciar o que eu presenciei. Senti uma pontada de inveja.

- É verdade, mas vou ouvir-las – ele discou o número do correio de voz e escutou. Já que não estava no alto-falante, ouvi apenas sussurros. Seu rosto ficou rígido, petrificado era a palavra melhor, comecei a me preocupar e fiquei nervosa.

- O que aconteceu? – estava quase gritando, com uma voz muito aguda.

- É melhor você mesma escutar – ele disse sombriamente, com uma voz de defunto, e apertou o botão auto-falante.

Era a voz de Alice, mas estava muito curta e cansada, como se ela ti­vesse chorado a noite toda. Claire me olhava estranhamente.

Edward. Precisamos falar muito com você e Bella. Aconteceu uma coisa terrível. A... a... meu deus. Bella se você estiver ouvindo, por favor, controle-se. Nós já estamos ten­tando resolver tudo isso – ela suspirou e falou com uma voz vinda do fundo de um poço ou até mesmo de uma cova; meu coração parecia gelatina sobre uma chapa exposta ao sol – Renesmee sumiu.

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