quarta-feira, 15 de junho de 2011

3 - Praticidade

3 – Praticidade

ENTRAMOS NA CASA E CHARLIE ESTAVA, COMO SEMPRE, SENTADO assistindo algum jogo na TV.

- Pai?

- Bella? – ele disse assustado. Tinha que me lembrar de me mexer, respi­rar, piscar várias vezes por minuto. Como ser humano é complicado.

- Sou eu pai – ele se virou e me abraçou com força, não que eu tenha sentido. Percebi também que ele sentiu frio quando em abraçou.

- Bella, que surpresa! Tinha me esquecido que você tem uma cópia da chave... – Opa! Esqueci-me desse detalhe.

- Não sei como – improvisei rapidamente.

- O que faz aqui em Forks?

- Está tendo um feriado na Dartmouth – menti – Então resolvi passar por aqui.

- Que bom. Nessie! – ele arregalou os olhos – Como você está enorme!

- Charlie! Que saudades! – ela falou e pulou no pescoço dele, ainda des­confiado.

- Nossa! Bella? – falou ele apontando com a cabeça para Renesmee.

- Pai, você preferiu não ficar sabendo dos detalhes.

- Claro, como vai Edward? – disse Charlie de modo amistoso. Não fa­zia sentindo ser rude com Edward depois de tudo que ele fez por nós.

- Vou muito bem, Charlie. Como vai Forks? – perguntou Edward sem­pre educado.

- Bem calma. Não está acontecendo muita movimentação...

- Ah, que bom – disse Edward.

- E Jacob, vocês já o viram?

- Já sim, Meu Jacob foi nos visitar quando chegamos – respondeu Renes­mee.

- Seu Jacob? Rá! Isso é ótimo – Charlie falou – Bella, quanto tempo vocês irão passar aqui?

- Um mês, mas ou menos. Ou mais.

- Que bom.

Olhei em volta e vi a casa completamente limpa e arrumada. Senti sauda­des do tempo em que cozinhava para Charlie, mas acho que ele nem se lembrava que um dia eu passei por lá.

- Pai, Sue ainda está cozinhando para você? – perguntei, mesmo sabendo da resposta. Passava algumas noites rondando pela casa de Charlie para me certificar que está tudo bem por lá, porém, fazia parte da minha farsa não saber desses detalhes da vida dele. E mais: eu sabia de detalhes que envergonhariam meu pai se eu perguntasse, mas ele há de revelá-los.

- Está sim, para mim e para Billy. E Bella... nós estamos... – suas bochechas ficaram vermelhas – Estamos juntos.

- Pai, isso é ótimo! – bingo.

- E agora Seth e eu somos realmente da mesma família – lembrou Edward.

- Ora Edward, como se precisasse de um vínculo formal para isso... – ele riu.

- Que bom vovô. Você e Sue são lindos juntos.

- Não me envergonhe querida – ele agitou as mãos como nos filmes; era hilária a situação.

- Pai, realmente eu estou feliz por vocês. A vida os tornou solitários. Nada melhor do que a união – eu era uma solitária e Edward também; deu certo.

- Obrigado filha. Sue realmente completa minha vida e ela só não vem morar aqui para não deixar Seth e Leah sozinhos, já que essa casa não caberá a todos confortavelmente.

- Então por que você não vai morar com ela?

- Eu nunca deixaria essa casa. Você sabe... ela me traz muitas lembranças que eu não quero esquecer, como suas, menina.

- Ah, pai, que bom...

- E não se preocupe, não irei lhe prender por você não está mais aqui comigo.

- Que bom. Pelo menos está tudo em ordem.

- E os Cullen, como vão Edward?

- Todos bem, obrigado por perguntar.

- Mande minhas lembranças para Carlisle. Faz um bom de tempo que nós não nos encontramos.

- Mandarei.

- Como vai a faculdade. Bella?

- Muito legal pai. Literatura é uma área muito interessante de se estudar, mas muito difícil. Ser escritor é um dom.

- Claro que sim.

- É mesmo. Temos que ir agora; passamos mesmo só para dizer “oi” e ver se está tudo em ordem.

- Tudo bem, querida – ele dizia enquanto me abraçava. Conseguia sen­tir o sangue quente correndo pelas veias dele, mas, como fui caçar hoje e já tinha certa prática em me controlar, não era mais irresistível.

- Tchau Charlie – Renesmee o abraçou e ele fez aquela cara de “ainda não entendo”.

- Tchau Edward – falou e estendeu a mão.

- Tchau Charlie – ele retribuiu o aperto de mão – Nos ligue quando qui­ser nos visitar a qualquer hora.

- Ótimo, é uma grande ideia. Eu os levo até a porta.

Saímos da casa e paramos na porta. Para variar, estava chovendo torrenci­almente e eu tinha me esquecido completamente de trazer um guarda-chuva para continuar a farsa. Hoje, eu estava com amnésia, o que era com­pletamente estranho.

- Filha, você não quer ficar até que a chuva passe? Vocês podem ficar para jantar.

- Não, obrigada pai, não quero atarefar ainda mais Sue, e temos mesmo que ir.

Renesmee correu, como humana, na frente e entrou primeiro no carro. Edward, antes de entrar, acenou para ele. Fiz o mesmo e entrei, esperando ver a reação de Alice quando chegarmos e ela constatar que meus sapatos estavam destruídos.


- Como é incômodo não poder correr na frente de Charlie. Não pode­mos fazer nada de prático que a vida vampira ofereça na frente dele – reclamei já afastado da casa de Charlie. Como eu dissera, tínhamos que andar devagar, tanto a pé quanto no carro, até que Charlie não possa nos ver voando em um Volvo a 200 km/h.

- É verdade, mas temos que preservar a integridade mental dele – Ed­ward riu.

- Um dia, ele vai saber de tudo. Só assim nós vamos poder fazer tudo sem ter que planejar cada movimento.

- Quando ele souber, vamos correr o risco de ele ter um AVC – eu e Renesmee rimos.

- Não sei como eu não tive um AVC quando soube de vocês. Que eu saiba, eu era que tinha um cérebro defeituoso e Charlie é muito mais forte do que eu era. Então, vamos correr o risco, ok?

- Tudo ao seu tempo.

- Nós temos todo o tempo do mundo pai – lembrou Renesmee.

- Claro que sim amor.

A chuva não atrapalhava nosso “voo”. O máximo que poderia aconte­cer em caso de um acidente, era estragar a brilhante lataria do Volvo, e isso não era nada, comparado com os outros maravilhosos carros que tínhamos na nossa garagem. Mas eu não me importava com carros e estava longe de me preocupar com isso. Estava me lembrando do “sonho” que tive hoje pela ma­nhã. Aquele manto preto era o símbolo da única coisa que temíamos. Como eu dissera no sonho, era muito útil ter esse escudo no meu cérebro, caso con­trário, Edward saberia que aquilo me afligia. Eu sei que posso tirá-lo (depois de muita prática, posso tirá-lo e colocá-lo na hora que eu quisesse), entretanto, hoje eu resolvi colocá-lo. Edward não precisava se preocupar com aquilo; foi só um sonho, bem real, mas um sonho.

- Bella, eu percebi que hoje eu não consegui ler sua mente. Por que você colocou seu escudo? – Edward não deixava nada passar.

- Como? – fiz-me de desentendida.

- Seu escudo. Você o colocou de volta.

- Ah, não tinha percebido – menti.

- Pois o tire.

- É... não posso.

- Por quê? – como eu disse, não deixava passar nada.

- Olha – tive que improvisar rápido, mas Alice me mataria – Alice está preparando uma festa para nós de casamento e queria que você não soubesse, por favor, não fale nada com ela, nem você Renesmee.

- Ah, tudo bem. Tinha que ser coisa da Alice – ele falou com um ar con­vencido, pelo menos para mim – Mas agora que eu já sei você vai tirar o escudo?

- Não, você não pode saber dos detalhes – estava perfeita na arte da mentira hoje.

- Certo – ele riu – Não o tire. Vamos deixar Alice 1% mais feliz, se é que isso é possível.

Foi um alívio ter pensando em tudo isso tão rápido. Obrigada escudo. Ninguém poderia ficar sabendo daquele sonho, ou melhor, ninguém precisava saber disso. Não sei por que eu estava fazendo tanto drama com aquilo. Eu gostava de alimentar minha mente com coisas infundáveis; era como uma dia­bética que a cada minuto comia um torrão de açúcar. Matava-me aos poucos – divertido. Acho que sou masoquista. Que coisa idiota. Mesmo sendo somente imaginação minha, deixaria só para mim. Argh! Tinha que parar com isso. Estava neurótica! Comecei a respirar rapidamente, mesmo não precisando.

- O que foi Bella?

- Nada.

- Você parece nervosa – será mesmo que eu estava com o escudo?

- Impressão sua.

O caminho todo foi tenso, lutando contra minha mente e obrigando-a a parar de ser idiota. Chegando a casa de Carlisle, Renesmee me puxou para um canto, o que fez minha cabeça girar, e falou:

- Pai, pode ir à frente? Preciso conversar algo com a mamãe, coisa de mulher. E não leia minha mente para saber o que é.

- Tudo bem – ele riu e entrou na casa sem olhar para trás – Não que eu possa controlar isso...

- Vá!

Renesmee parou e olhou para mim.

Não se preocupe mãe.

Congelei, se isso fosse mesmo possível. Tinha que ficar calma para que ela não percebesse.

- Não me preocupar com o que, Renesmee?

Não contarei para ninguém sobre seu sonho.

Acho que ouvi um craque. Meu crânio se partindo.

- O que filha? – tinha que conseguir despistá-la.

Quando eu entrei na sua mente hoje, pela manhã, para eu ter o poder da pessoa, tenho que vasculhar completamente seus pensamentos, pelo menos os mais frescos e relutan­tes, ou como Zafrina disse, os que mais “martelam” seu cérebro no momento que eu entro em você. O cérebro da pessoa vira meu cérebro. Então, eu vi seu sonho... com eles.

- Nessie, filha, não precisa se preocupar; foi só um sonho.

Sei disso. Eu vou manter esse sonho “afastado” do papai.

- Ótimoera incrível como Renesmee compreendia aquela situação. Sua mente já era mesmo de uma adulta.

Aquela conversa fez com que eu me lembrasse mais ainda do meu so­nho, mas isso não durou muito tempo. Convenci-me a não pensar muito nisso. Propus-me a fazer qualquer coisa para tirar minha mente daquilo, até ficar bem perto de Jacob. Aquele cheiro de cachorro molhado era (agora, quase) insuportável e iria tirar minha mente daquilo; contudo, eu sabia que aquele negro manto iria percorrer minha mente pelo resto do dia, pelo menos.

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