quinta-feira, 23 de junho de 2011

6 - Megera

6 – Megera

- POR QUE SOMENTE ALGUNS VAMPIROS TÊM PODERES ESPECIAIS? – PERGUNTEI.

- Os poderes que vocês adquirem nessa nova vida estão relacionados com algo que aconteceu na sua vida humana. Ainda não tenho convicção para dizer o que acontece na mente de vampiros dotados com esse dom, muito menos com vampiros com dons físicos, como é o caso de Benjamim. Isso está além da minha compreensão por enquanto. Porém, presumo, que algum trauma psicológico, algo que poderia ter afetado a pessoa em questão, possa ser a causa desse dom na nova vida.

- Outra coisa que eu nunca entendi bem é o porquê de nós nos auto-intitularmos “imortais”.

- Isso mesmo – ele riu-se – Essa é uma ótima pergunta que pode ser respondida com uma breve volta ao passado.

“Os vampiros de antigamente gostavam, e ainda gostam, de ser melho­res que os seres humanos, por isso, intitularam-se imortais, que é o presente que qualquer humano anseia. Se nós o temos, nós somos superiores, é assim que eles pensam. Eles ficavam se vangloriando para os humanos, os que não devoravam claro, e essa é a história que os humanos conhecem. Já que se fi­cou falando “imortais”, “imortais”, “imortais” por tanto tempo, meio que se tornou um rótulo para nós, mesmo que os humanos não possam saber da nossa existência agora. Mas, como eu disse, no princípio eles ficaram sa­bendo. Basicamente, somos humanos com prazo de validade indeterminado”.

- Outro ponto: se não é permitido humanos saberem da nossa existên­cia, como todos sabem de histórias de vampiros e suas lendas? Mas essa você acabou de responder.

- Não completamente. O que você sabia sobre vampiros antes de conhecer Ed­ward?

- Bem – tentei me recordar de todas as, agora, infundáveis histórias so­bre vampiros – Sabia que vampiros tinham presas, não tinham reflexo, não saiam em fotografias, só entravam em casas se fossem convidados – comecei a rir –, tinham medo de alho, crucifixos, água benta, sol e dormiam em caixões – ao terminar, imaginei-me sendo aquilo que eu cultuei por tanto tempo. Bi­zarro.

- Isso também é respondido pelos antigos vampiros.

“Naquela época, os vampiros eram conhecidos, mas não saiam desfi­lando por aí dizendo que eram vampiros. Eles precisavam ser discretos, ou suas presas fugiriam. Você já viu um leão andando perto de alces e rugindo ‘eu sou um leão’? Claro que não – ele riu – Então, para não descobrirem que eram vampiros, inventaram essas lendas. Ora, se um vampiro entrasse numa casa sem ser convidado, ou ainda se ela estivesse abarrotada de alho e não acontecesse algo, os humanos pensariam logo que ele não era um vampiro. Tudo aquilo que os humanos acreditam até hoje, só reforça a ideia de que nós não somos vampiros. A temporada de caça estava aberta para eles. E mais: milha­res de pessoas morreram por causa disso. Se uma tivesse alergia a alho, por exemplo, era executada imediatamente, pois era considerado um vampiro. Fo­ra outras bizarrices que os humanos inventavam e que acarretou na morte de inocentes.”

- Nossa, que horrível.

- É verdade. Depois de muito tempo, os vampiros viram que precisa­vam se organizar. Eles se basearam, ironicamente, nos próprios humanos para fazer isso, e ainda dizem que os humanos só podem nos dar o sangue. Quando surgiram os primeiros Volturi, eles perceberam que não era plausível andar espalhando a existência deles e passaram a punir quem fizesse isso. Na Idade Média, vários vampiros foram parar na fogueira de propósito só para impressionar os humanos. Eles adoravam ver os rostos de medo quando eles eram amarrados, quase voluntariamente, à fogueira e o fogo não os consumia. Obviamente, os Volturi trataram de queimá-los de verdade e implantaram entre os humanos as histórias de que a existência de vampiros eram lendas. Foi a pri­meira lei criada da história dos Volturi, e que, no caso, é a mais importante.

- Uau. História Vampira é mais interessante que História Geral; devia ser matéria obrigatória nas escolas.

Pensar em todo esse assunto de vampiro foi muito bom; além de fazer esque­cer-me da minha sentença mortal, fez o tempo passar mais rápido. Quanto mais cedo começar meu açoitamento, mas cedo irá acabar. Renesmee estava comendo um sanduíche quando surgiu uma estranha e embaraçosa pergunta na minha cabeça.

- Renesmee, é... nada, esqueça.

O que foi mãe? – escutei em minha mente. Renesmee não parava de co­mer e por isso, preferiu não parar.

- Não é nada, besteira minha – estava morrendo de rir por dentro.

Pode perguntar, não tem problema.

- É que... – comecei a rir – Eu estava me perguntando. Como é beijar um cachorro? – Renesmee quase se engasgou e nós demos um surto de risos com aquela pergunta idiota.

Como assim, mãe?

- É que, Jacob fede muito. Cheiro de cachorro molhado...

Eu nem sinto muito o cheiro. Faço com que minha parte humana prevaleça quando estou com ele.

- Ah, sim. Essa pergunta sempre me instigava – não consigo imaginar ser híbrido; como um humano super forte. E mais estranho perguntar isso para minha filha.

É verdade, eu gosto disso, ser diferente.

- E eu estava pensando. Antes de Forks, nunca imaginaria que existiam vampiros, lobisomens, metamorfos, essas coisas; sempre delimitava uma linha na minha vida. A vida antes de Forks, pacata, simples, sozinha; e a depois de Forks, agitada, complicada, forte.

É. Ainda bem que eu nasci no meio de tudo isso. Não sei se eu aguentaria descobrir tudo isso de uma só vez.

- Não sei como eu aguentei tudo isso. Lembro-me bem do dia que eu descobri que Edward era vampiro.

Conte-me! Quero saber os detalhes!

Contei cada minúcia que minhas embaçadas lembranças me permitiam.

- Eu sempre sonhei com isso – ela terminou o sanduíche e falou –, o encontro perfeito, romântico. Espero sinceramente que Jacob me leve a um passeio desses, pela floresta, sem ter hora para voltar, só nós e a natureza...

- Claro que ele vai fazer isso, querida, do jeito que ele te ama.

- É, nem que eu tenha que acidentalmente – ela focou lentamente nessa palavra de forma irônica e impagável – colocar essa ideia na cabeça dele – nós rimos.

- Você é hilária Renesmee.

- Claro que sou.

- E modesta – rimos de novo. Adorava conversar com Renesmee, ela não era só minha filha, era minha amiga. Foi tão bom que ela cresceu rapida­mente; ela já tinha maturidade de enfrentar qualquer coisa.

- Acho que estamos chegando – interrompeu Edward.

- Estamos? – perguntei.

- Olhe – disse Edward apontando para um ponto no horizonte. Lá es­tava uma ilha, uma pequena ilha. O tom verde era predominante; altas árvores se espalhavam por todos os lados, o mar estava límpido e muito azul; mas uma coisa cortava essa harmonia verde-azul. Uma enorme casa com altas pa­redes amarelas aparecia no meio da floresta em miniatura. O celular de Ed­ward tocou.

- “Agora que vocês viram a casa, deixem o barco na praia e entrem. Alice”

- Vamos logo – minha cabeça rodava; se eu ainda humana, aposto que estaria com estuações.

O barco foi um pouco mais devagar para poder parar na praia de areias brancas e quentes, o que fazia meu cérebro ter um colapso. Descemos do barco e fomos até a enorme casa, rezando para que Alice estivesse ali dentro e acabasse logo com isso. A casa era perto da praia, e muito maior do que pare­cia. De dentro da casa, ouvimos sussurros e pequenas movimentações. Ed­ward deu um rizinho. Mau sinal.

Entramos e eu senti cabos de aço presos a meu corpo, a perfuração da injeção letal em minhas veias, e raios caindo em minha cabeça, provenientes da tempestade que pairava sobre nós desde aquela manhã. Deveria ter esco­lhido outro livro para ler. Acho que escolherei A megera indomada, também de Shakespeare, da próxima vez; com certeza minha raiva seria tão indomada que Alice desejaria se lançar ao fogo da próxima vez que tentar fazer qualquer festa idiota.

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