21 – Patogenia
- CHARLIE, EU TENHO UMA “MEIO BOA” NOTÍCIA – ponderei, enquanto escutei Charlie engolir em seco.
- “Meio boa”? – sua voz saiu rouca.
- Isso pai. Eu não estou em Forks – tinha que ser cautelosa para ele não enfartar.
- E onde você está?
- Bem, nesse momento eu estou no Chile.
- CHILE! – ele gritou – O que você está fazendo aí?
- Acalme-se pai... Eu, ou melhor, todos os Cullen estão aqui. Nós recebemos uma pista de Renesmee.
- UMA PISTA!
- Pai, por favor, eu era quem deveria está histérica e estou zen – menti.
- Ok, desculpe-me, mas é muito difícil saber de tudo isso por telefone.
- Eu sei...
- Quando vocês descobriram essa pista?
- Ontem pela manhã e...
- Por que você não me contou – agora a culpa era minha.
- Porque nós tínhamos certeza de que, se contássemos você comandaria o FBI para ir até o Chile...
- É claro que eu faria isso!
- Então?! Nós já conversamos. As pessoas que levaram Renesmee também são especiais. Armas, tanques, bombas, tudo isso seria inútil.
- Ah... – ele falou e eu suspirei.
- Então pai, fique quietinho aí em Forks que nós vamos tentar resolver tudo.
- Eu não tenho dez anos – Charlie, sempre teimoso.
- Mas parece. Tchau pai, ligo assim que souber de qualquer coisa.
- Qualquer coisa?
- É. Qualquer coisa.
Tirei o telefone do ouvido, mas ainda consegui ouvir Charlie respirar e murmurar “Qualquer coisa”.
Estávamos em Santiago. Não trouxemos muitas coisas (apenas os documentos; Alice disse que, se quisermos roupas, compraríamos aqui – os comissários, aeromoças e todos da companhia aérea ficaram muito intrigados), então ficamos parados ao relento diante do aeroporto. Eu particularmente não tinha muita ideia do que fazer e esperava que alguém tivesse, caso o contrário, ficaríamos sem direção; atirando no escuro. Olhei ao redor e me deparei com rostos de pura incerteza. E agora?
- Ui, alguém mais está sentindo? – indagou Benjamin, torcendo o nariz. Alice, que estava vendo um mapa a alguns metros à frente, tentando identificar as ruas nos seus respectivos desenhos no mapa, parou para olhar ao redor, como se pudesse ver o cheiro. Olhava de um lado ao outro e marcava algo no mapa com uma caneta.
- Sentindo o que? – perguntou Carlisle. Olhei novamente ao redor e Benjamin também estava torcendo o nariz.
- Esse cheiro de cachorro molhado?
- Cachorro molhado? – não estava sentindo esse cheiro até que uma brisa lambeu nossos rostos e o cheiro veio em cheio. Nem se comparava com o cheiro de Jacob, seja porque eu praticamente estava acostumada com o seu cheiro, ou porque aquilo não era o cheiro de metamorfos.
- Não, eu tenho plena certeza de que não é um metamorfo – falou Edward.
- Argh! Esse cheiro vai ficar impregnado pelo resto dos tempos na minha roupa! – gritou Alice.
- Donde ele deve está vindo? – perguntei.
- Bella, isso é o cheiro de lobisomens – Edward falou sem rodeios; gelei – Você não conhece porque você nunca sentiu. Quando voltamos ao chalé, a chuva já tinha retirado quase todo o cheiro, então...
- Então estamos na pista certa, não é?
- Ao que parece, sim – ele encarou o chão.
- Mas os lobisomens não tinham quase sido extintos? – lembrei-me da história de Caius, de que ele praticamente aniquilou todos os lobisomens da Europa.
- Aí é que está, amor. Caius praticamente aniquilou todos os lobisomens da Europa – depois do enfoque, percebi a ideia que ele queria transmitir, mas ele a pronunciou – Ainda existem lobisomens pelo mundo.
- Benjamin, como você sentiu o cheiro antes de nós?
- Bella, o ar para mim é muito mais apurado – ele respondeu com um sorriso – por isso senti o cheiro bem antes. Para falar a verdade, desde o aeroporto, consigo sentir o cheiro bem levemente, todavia, aqui está muito forte. Mas, se eu não estiver enganado, esse cheiro é, vamos dizer fresco no sentido de novo. Não pertence a esse lugar há tanto tempo.
- Então estamos na pista certa, definitivamente – concluiu Edward – Teremos que seguir o cheiro para ver o que conseguimos.
- Será que é uma boa ideia? – hesitou Rose.
- Bem, vamos dividir assim os grupos: eu, Bella, Alice, Zafrina, Benjamin, e Tia, evidentemente, por um lado; e Emmett, Carlisle, Jasper, Esme, Claire e Rose por outro. Assim teremos um poder físico de cada lado, um experiente lutador – Edward olhou para Jasper – e poderemos nos defender melhor, não acham? – todos balançaram as cabeças em concordância, mas Claire e Benjamin, ambos com o poder físico, estavam mostrando-se orgulhosos por ganhar tanta (e merecida) importância.
Com os grupos separados, depois de uma rápida despedida, já que Alice e Jasper se separariam, seguimos aquele aroma horrível. O cheiro, que estava vindo de todos os lados, cruzava as casinhas amarrotadas e coloridas, em meio a um turbulento trânsito. Várias pessoas olhavam-nos com curiosidade e decidimos andar de táxi. Edward disse ao taxista que queria fazer um tour pela cidade e ele, sem pestanejar, aceitou de imediato. Quando a pista estava bem forte, acabamos entrando numa espécie de parque, onde as árvores eram grandes e o táxi não poderia entrar, então achamos melhor ir andando. Andando não, correndo. Disparamos pela floresta.
- O cheiro está mais forte aqui, ui – ralhei.
- Quem diria. Lobisomens no Chile! Queria ver a cara de Caius se descobrisse isso.
- Eu também – falou Alice, com os cabelos presos sendo empurrados pelo vento – Ele surtaria, com certeza.
- Alice, eu também acho que seja por isso. Com certeza é – disse Edward, lendo os pensamentos de Alice.
- Eu estava especulando se essa é uma das razões de eu não conseguir enxergar o futuro – Alice respondeu nossas expressões de dúvida – Os lobisomens, assim como os metamorfos, são muito instáveis. Mesmo mudando somente na lua cheia, eles, na forma humana, são incontroláveis e impulsivos; posso até chamá-los de chatos, além de cheiraremmuito mal, diga-se de passagem. Se eles são assim na forma humana, imaginem quando se transformam. Por isso não consigo vê-los.
- Então – trabalhei – Renesmee está com lobisomens? – a ideia, depois de dita, parecia repugnante.
- Ao que parece, sim – respondeu Edward –, e é isso que me preocupa, mas não podemos ter certeza, já que o futuro de Renesmee também é cego para Alice. Eu sei que ela é vampira, mas lobisomens podem estraçalhar um vampiro, se pegá-lo desprevenido, e existem algumas formas.
- Primeiramente, nós somos vampiros... Nós podemos acabar com lobisomens não?
- Bella, lobisomens são ágeis, perigosos, não se importam com o que acontecerá, apenas querem estraçalhar o que estiver pela frente. Eles se assemelham com os recém-nascidos por isso. E tal como, nunca os deixe pegá-los pela retaguarda. Nunca.
- Tudo bem. E quais são essas formas de pegar um vampiro desprevenido? – não conhecia formas de pegar um vampiro desprevenido.
- O sangue humano tem muitas patogenias. Determinadas doenças nos afetam também, como leucemia, hepatite, aids e mononucleose. Se ingerirmos um sangue com qualquer uma dessas doenças, ficaremos muito enfraquecidos. É como se um humano consumisse um alimento estragado, fora da validade, só que nos vampiros isso é bem pior. Se formos pegos quando ingerimos uma dessas doenças, podem nos estraçalhar com uma facilidade tremenda. Já que o sangue é que traz nossos nutrientes, ele, quando doente, nos deixa doente. Você entendeu?
- Claro, só estou surpresa como tudo isso. Não sabia que até mononucleose causaria tantos problemas.
- Você nem imagina. Se não ficarmos reclusos nesse tempo, é só um empurrãozinho e nós já éramos – estremeci só de pensar nisso e passei a olhar as árvores, cada vez mais altas e juntas; Benjamin não parava de olhar para o alto.
- Será que Renesmee foi forçada a beber um sangue contaminado?
- É uma hipótese que não deve ser descartada...
- É impressão minha ou o cheiro está ficando mais forte? – indagou Alice mudando de assunto.
- Talvez, mas também pode ser porque as árvores estão mais juntas – especulou Edward também olhando para o alto.
Sem dúvida nenhuma o cheiro estava muito mais forte e as árvores mais juntas, como uma concha protegendo o chão, que tinha folhas de todas as cores, do verde limão ao caramelo, voando para longe enquanto passávamos.
- Esperem! – alarmou Edward – Tem casas aqui perto; vamos caminhando. Não correremos o risco de sermos vistos.
Passamos a caminhar pela negra floresta e começamos a perceber como as árvores eram fantasmagóricas. Gigantes silenciosos nos vigiando e lançando aquele cheiro de lobisomem por todos os lados que fazia o caminho uma flagelação. Ainda nem tinha escurecido por completo, mas a lua brilhava incandescente e cheia, como um espelho mal feito do sol, mas mesmo assim, mantendo sua beleza ímpar.
- Eu moro em florestas há séculos, mas essa é bem... estranha – pronunciou-se Zafrina, que, assim como Benjamin, vez e outra tocava nos grossos troncos de árvores.
- Eu sei o que quer dizer, Zafrina – disse Benjamin – Acho que esse solo, que é bem diferente do solo da Amazônia, faz com que esse país seja diferente – juro que não via diferença – Já que aqui existe o encontro de placas tectônicas, que deram origem a Cordilheira dos Andes, cá é meio instável. Eu praticamente sinto a terra chacoalhar aqui.
- Fiquem atentos! Têm alguns perto daqui – cochichou Edward.
- Como você sabe? – perguntei trêmula.
- Consigo ver seus pensamentos.
- Ver?
- São apenas imagens disformes e brilhantes. Só vejo árvores e relances de nós.
Eu poderia não estar sentindo as placas tectônicas moverem-se debaixo dos meus pés, nem os lobisomens mais perto, mas eu senti uma pressão ao nosso redor tão forte que nem conseguia respirar. Até meus movimentos estavam mais duros.
- Cuidado! Eles estão a...! – tentou gritar Edward antes de nos petrificarmos, mas era tarde demais
- O que... estará... acontecendo? – pronunciou Alice enquanto a pressão aumentava.
- Claire! – Edward conseguiu dizer.
Nossos movimentos cessaram e eu entrei em pânico. Era como se o ar estivesse sólido. Concreto, era a melhor descrição. Não sabia a extensão da influência do poder, então imaginei como os humanos estariam respirando e se ainda estavam inteiros. Edward, que estava congelado e virado para mim, tinha uma expressão assustadora. Parecia que seus olhos estavam lutando desesperadamente para olhar ao lado. Senti meus membros rachando, tamanha era a força que nos segurava. A pressão começou a nos puxar ao chão, um imã gigantesco no centro da Terra. Meus braços estavam indo de encontro ao chão lentamente, como se o oxigênio estivesse empurrando-os com uma força hercúlea. As folhas e os insetos que planavam lentamente por ali foram esmagados com uma facilidade terrível e se não fossemos tão resistentes, nós seríamos como aquelas folhas.
A pressão sumiu tão rápido quando chegou, e sumiu tão rápido que a inércia fez todos caírem no chão, e o barulho de pedregulhos ecoaram pela floresta, junto com o som de pisadas no solo. Parecia que as árvores estavam se debatendo.
Aquela força me deu vertigens, porque vi manchas pretas em meus olhos, movendo-se rapidamente e um barulho que perfurava o solo. Respiramos de alívio enquanto relaxamos nossos braços quando o cheiro de lobisomem, tão forte que parecia que eles estavam no nosso lado, ou até mesmo, lambido nossos rostos, consumiu nossos pulmões.
- Não! – gritou Benjamin olhando ao redor. O chão estava completamente arranhado e machucado, com depressões enormes feitas por garras igualmente enormes. As folhas tinham sido jogadas para a tangente, formando um estranho círculo nu de terra em nossa volta; um furacão que tinha parado exatamente aí. Quem fez aquilo tinha planejado muito bem seus passos, porque a sequência de depressões estava numa ordem sincronizada, que terminava no vampiro mais distante de todos; o mais afastado, que agora não estava mais lá. Sua presença foi substituída por marcas que concluíam que ela foi arrastada por vários lobisomens. Benjamin tentou correr, mas Edward foi mais rápido e o segurou.
- Zafrina, ajude-me! – gritou Edward, e Zafrina voou até eles e Edward soltou Benjamin, que ficou estagnado, gritando “Devolva minha visão!”. Eu estava paralisada ao lado de Alice, que fez o favor de colocar em palavras a pergunta que estava em nossas cabeças.
- O que aconteceu com Tia? – ela falou e olhou para mim, com o rosto petrificado. Seu falso aparelho ortodôntico, ou o que restava dele, brilhou com a luz da lua.
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