sábado, 20 de agosto de 2011

21 – Patogenia

21 – Patogenia

- CHARLIE, EU TENHO UMA “MEIO BOA” NOTÍCIA – ponderei, enquanto escutei Charlie engolir em seco.

- “Meio boa”? – sua voz saiu rouca.

- Isso pai. Eu não estou em Forks – tinha que ser cautelosa para ele não enfartar.

- E onde você está?

- Bem, nesse momento eu estou no Chile.

- CHILE! – ele gritou – O que você está fazendo aí?

- Acalme-se pai... Eu, ou melhor, todos os Cullen estão aqui. Nós recebe­mos uma pista de Renesmee.

- UMA PISTA!

- Pai, por favor, eu era quem deveria está histérica e estou zen – menti.

- Ok, desculpe-me, mas é muito difícil saber de tudo isso por telefone.

- Eu sei...

- Quando vocês descobriram essa pista?

- Ontem pela manhã e...

- Por que você não me contou – agora a culpa era minha.

- Porque nós tínhamos certeza de que, se contássemos você comanda­ria o FBI para ir até o Chile...

- É claro que eu faria isso!

- Então?! Nós já conversamos. As pessoas que levaram Renesmee também são especiais. Armas, tanques, bombas, tudo isso seria inútil.

- Ah... – ele falou e eu suspirei.

- Então pai, fique quietinho aí em Forks que nós vamos tentar resolver tudo.

- Eu não tenho dez anos – Charlie, sempre teimoso.

- Mas parece. Tchau pai, ligo assim que souber de qualquer coisa.

- Qualquer coisa?

- É. Qualquer coisa.

Tirei o telefone do ouvido, mas ainda consegui ouvir Charlie respirar e murmurar “Qualquer coisa”.

Estávamos em Santiago. Não trouxemos muitas coisas (apenas os documen­tos; Alice disse que, se quisermos roupas, compraríamos aqui – os comissá­rios, aeromoças e todos da companhia aérea ficaram muito intrigados), então ficamos parados ao relento diante do aeroporto. Eu particularmente não tinha muita ideia do que fazer e esperava que alguém tivesse, caso o contrário, fica­ríamos sem direção; atirando no escuro. Olhei ao redor e me deparei com rostos de pura incerteza. E agora?

- Ui, alguém mais está sentindo? – indagou Benjamin, torcendo o nariz. Alice, que estava vendo um mapa a alguns metros à frente, tentando identifi­car as ruas nos seus respectivos desenhos no mapa, parou para olhar ao redor, como se pudesse ver o cheiro. Olhava de um lado ao outro e marcava algo no mapa com uma caneta.

- Sentindo o que? – perguntou Carlisle. Olhei novamente ao redor e Benjamin também estava torcendo o nariz.

- Esse cheiro de cachorro molhado?

- Cachorro molhado? – não estava sentindo esse cheiro até que uma brisa lambeu nossos rostos e o cheiro veio em cheio. Nem se comparava com o cheiro de Jacob, seja porque eu praticamente estava acostumada com o seu cheiro, ou porque aquilo não era o cheiro de metamorfos.

- Não, eu tenho plena certeza de que não é um metamorfo – falou Edward.

- Argh! Esse cheiro vai ficar impregnado pelo resto dos tempos na mi­nha roupa! – gritou Alice.

- Donde ele deve está vindo? – perguntei.

- Bella, isso é o cheiro de lobisomens – Edward falou sem rodeios; gelei – Você não conhece porque você nunca sentiu. Quando voltamos ao chalé, a chuva já tinha reti­rado quase todo o cheiro, então...

- Então estamos na pista certa, não é?

- Ao que parece, sim – ele encarou o chão.

- Mas os lobisomens não tinham quase sido extintos? – lembrei-me da história de Caius, de que ele praticamente aniquilou todos os lobisomens da Europa.

- Aí é que está, amor. Caius praticamente aniquilou todos os lobisomens da Europa – depois do enfoque, percebi a ideia que ele queria transmitir, mas ele a pronunciou – Ainda existem lobisomens pelo mundo.

- Benjamin, como você sentiu o cheiro antes de nós?

- Bella, o ar para mim é muito mais apurado – ele respondeu com um sorriso – por isso senti o cheiro bem antes. Para falar a verdade, desde o aero­porto, consigo sentir o cheiro bem levemente, todavia, aqui está muito forte. Mas, se eu não estiver enganado, esse cheiro é, vamos dizer fresco no sentido de novo. Não pertence a esse lugar há tanto tempo.

- Então estamos na pista certa, definitivamente – concluiu Edward – Teremos que seguir o cheiro para ver o que conseguimos.

- Será que é uma boa ideia? – hesitou Rose.

- Bem, vamos dividir assim os grupos: eu, Bella, Alice, Zafrina, Benja­min, e Tia, evidentemente, por um lado; e Emmett, Carlisle, Jasper, Esme, Claire e Rose por outro. Assim teremos um poder físico de cada lado, um ex­periente lutador – Edward olhou para Jasper – e poderemos nos defender melhor, não acham? – todos balançaram as cabeças em concordância, mas Claire e Benjamin, ambos com o poder físico, estavam mostrando-se orgulho­sos por ganhar tanta (e merecida) importância.

Com os grupos separados, depois de uma rápida despedida, já que Alice e Jasper se separariam, seguimos aquele aroma horrível. O cheiro, que estava vindo de todos os lados, cruzava as casinhas amarrotadas e coloridas, em meio a um turbulento trânsito. Várias pessoas olhavam-nos com curiosidade e decidimos andar de táxi. Edward disse ao taxista que queria fazer um tour pela cidade e ele, sem pestanejar, aceitou de imediato. Quando a pista estava bem forte, acabamos entrando numa es­pécie de parque, onde as árvores eram grandes e o táxi não poderia entrar, então achamos melhor ir andando. Andando não, correndo. Disparamos pela floresta.

- O cheiro está mais forte aqui, ui – ralhei.

- Quem diria. Lobisomens no Chile! Queria ver a cara de Caius se desco­brisse isso.

- Eu também – falou Alice, com os cabelos presos sendo empurrados pelo vento – Ele surtaria, com certeza.

- Alice, eu também acho que seja por isso. Com certeza é – disse Ed­ward, lendo os pensamentos de Alice.

- Eu estava especulando se essa é uma das razões de eu não conseguir enxergar o futuro – Alice respondeu nossas expressões de dúvida – Os lobi­somens, assim como os metamorfos, são muito instáveis. Mesmo mudando somente na lua cheia, eles, na forma humana, são incontroláveis e impulsivos; posso até chamá-los de chatos, além de cheiraremmuito mal, diga-se de passa­gem. Se eles são assim na forma humana, imaginem quando se transformam. Por isso não consigo vê-los.

- Então – trabalhei – Renesmee está com lobisomens? – a ideia, depois de dita, parecia repugnante.

- Ao que parece, sim – respondeu Edward –, e é isso que me preocupa, mas não podemos ter certeza, já que o futuro de Renesmee também é cego para Alice. Eu sei que ela é vampira, mas lobisomens podem estraçalhar um vampiro, se pegá-lo desprevenido, e existem algumas formas.

- Primeiramente, nós somos vampiros... Nós podemos acabar com lobi­somens não?

- Bella, lobisomens são ágeis, perigosos, não se importam com o que acontecerá, apenas querem estraçalhar o que estiver pela frente. Eles se asse­melham com os recém-nascidos por isso. E tal como, nunca os deixe pegá-los pela retaguarda. Nunca.

- Tudo bem. E quais são essas formas de pegar um vampiro despreve­nido? – não conhecia formas de pegar um vampiro desprevenido.

- O sangue humano tem muitas patogenias. Determinadas doenças nos afetam também, como leucemia, hepatite, aids e mononucleose. Se ingerirmos um sangue com qualquer uma dessas doenças, ficaremos muito enfraquecidos. É como se um humano consumisse um alimento estragado, fora da validade, só que nos vampiros isso é bem pior. Se formos pegos quando ingerimos uma dessas doenças, podem nos estraçalhar com uma facilidade tremenda. Já que o sangue é que traz nossos nutrientes, ele, quando doente, nos deixa doente. Você entendeu?

- Claro, só estou surpresa como tudo isso. Não sabia que até mononucle­ose causaria tantos problemas.

- Você nem imagina. Se não ficarmos reclusos nesse tempo, é só um empurrãozinho e nós já éramos – estremeci só de pensar nisso e passei a olhar as árvores, cada vez mais altas e juntas; Benjamin não parava de olhar para o alto.

- Será que Renesmee foi forçada a beber um sangue contaminado?

- É uma hipótese que não deve ser descartada...

- É impressão minha ou o cheiro está ficando mais forte? – indagou Alice mudando de assunto.

- Talvez, mas também pode ser porque as árvores estão mais juntas – especulou Edward também olhando para o alto.

Sem dúvida nenhuma o cheiro estava muito mais forte e as árvores mais juntas, como uma concha protegendo o chão, que tinha folhas de todas as cores, do verde limão ao caramelo, voando para longe enquanto passáva­mos.

- Esperem! – alarmou Edward – Tem casas aqui perto; vamos cami­nhando. Não correremos o risco de sermos vistos.

Passamos a caminhar pela negra floresta e começamos a perceber como as árvores eram fantasmagóricas. Gigantes silenciosos nos vigiando e lan­çando aquele cheiro de lobisomem por todos os lados que fazia o caminho uma flagelação. Ainda nem tinha escurecido por completo, mas a lua brilhava incandescente e cheia, como um espelho mal feito do sol, mas mesmo assim, mantendo sua beleza ímpar.

- Eu moro em florestas há séculos, mas essa é bem... estranha – pronun­ciou-se Zafrina, que, assim como Benjamin, vez e outra tocava nos grossos troncos de árvores.

- Eu sei o que quer dizer, Zafrina – disse Benjamin – Acho que esse solo, que é bem diferente do solo da Amazônia, faz com que esse país seja diferente – juro que não via diferença – Já que aqui existe o encontro de pla­cas tectônicas, que deram origem a Cordilheira dos Andes, cá é meio instável. Eu praticamente sinto a terra chacoalhar aqui.

- Fiquem atentos! Têm alguns perto daqui – cochichou Edward.

- Como você sabe? – perguntei trêmula.

- Consigo ver seus pensamentos.

- Ver?

- São apenas imagens disformes e brilhantes. Só vejo árvores e relances de nós.

Eu poderia não estar sentindo as placas tectônicas moverem-se debaixo dos meus pés, nem os lobisomens mais perto, mas eu senti uma pressão ao nosso redor tão forte que nem conseguia respirar. Até meus movimentos es­tavam mais duros.

- Cuidado! Eles estão a...! – tentou gritar Edward antes de nos petrificar­mos, mas era tarde demais

- O que... estará... acontecendo? – pronunciou Alice enquanto a pressão aumentava.

- Claire! – Edward conseguiu dizer.

Nossos movimentos cessaram e eu entrei em pânico. Era como se o ar estivesse sólido. Concreto, era a melhor descrição. Não sabia a extensão da influência do poder, então imaginei como os humanos estariam respirando e se ainda estavam inteiros. Edward, que estava congelado e virado para mim, tinha uma expressão assustadora. Parecia que seus olhos estavam lutando de­sesperadamente para olhar ao lado. Senti meus membros rachando, tamanha era a força que nos segurava. A pressão começou a nos puxar ao chão, um imã gigantesco no centro da Terra. Meus braços estavam indo de encontro ao chão lentamente, como se o oxigênio estivesse empurrando-os com uma força hercúlea. As folhas e os insetos que planavam lentamente por ali foram esma­gados com uma facilidade terrível e se não fossemos tão resistentes, nós serí­amos como aquelas folhas.

A pressão sumiu tão rápido quando chegou, e sumiu tão rápido que a inércia fez todos caírem no chão, e o barulho de pedregulhos ecoaram pela floresta, junto com o som de pisadas no solo. Parecia que as árvores estavam se debatendo.

Aquela força me deu vertigens, porque vi manchas pretas em meus olhos, movendo-se rapidamente e um barulho que perfurava o solo. Respira­mos de alívio enquanto relaxamos nossos braços quando o cheiro de lobiso­mem, tão forte que parecia que eles estavam no nosso lado, ou até mesmo, lambido nossos rostos, consumiu nossos pulmões.

- Não! – gritou Benjamin olhando ao redor. O chão estava completa­mente arranhado e machucado, com depressões enormes feitas por garras igualmente enormes. As folhas tinham sido jogadas para a tangente, formando um estranho círculo nu de terra em nossa volta; um furacão que tinha parado exatamente aí. Quem fez aquilo tinha planejado muito bem seus passos, por­que a sequência de depressões estava numa ordem sincronizada, que termi­nava no vampiro mais distante de todos; o mais afastado, que agora não es­tava mais lá. Sua presença foi substituída por marcas que concluíam que ela foi arrastada por vários lobisomens. Benjamin tentou correr, mas Edward foi mais rápido e o segurou.

- Zafrina, ajude-me! – gritou Edward, e Zafrina voou até eles e Edward soltou Benjamin, que ficou estagnado, gritando “Devolva minha visão!”. Eu estava paralisada ao lado de Alice, que fez o favor de colocar em palavras a pergunta que estava em nossas cabeças.

- O que aconteceu com Tia? – ela falou e olhou para mim, com o rosto petrificado. Seu falso aparelho ortodôntico, ou o que restava dele, brilhou com a luz da lua.

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