22 – Rádio
A PERUCA DE TIA ESTAVA IMÓVEL E FALECIDA AO CHÃO FRIO, ENquanto Benjamin voltava a consciência, depois das visões de Zafrina. Alice estava com as mãos no rosto, perplexa. Sem sua visão dos perigos que enfrentaríamos tudo que acontecia era duplamente horripilante. A surpresa nunca foi o hobby de Alice, ironicamente.
- Benjamin, controle-se! – gritou Edward, segurando-o pelas costas.
- Não! Tia! – ele ainda tentava se debater, mas a cada investida contra Edward, ele acertava uma árvore, graças às visões de Zafrina.
- Edward! – gritou Carlisle. Ele e todos os outros Cullen vinham correndo até nós. Claire estava com uma expressão de dor – Edward, o que aconteceu?
- Jasper, acalme Benjamin, rápido! – Jasper flutuou até Edward e o clima ficou ameno e tranquilo.
- Ele está surtando – Jasper falou baixinho.
- Eu sei – retrucou Edward em resposta, soltando Benjamin – Carlisle, nós fomos atacados por lobisomens, quer dizer, não foi bem assim...
- Nós também! O que aconteceu aqui?
- A pressão ficou muito forte e nós ficamos presos...
- Culpa minha, desculpe... – falou Claire.
- Não se desculpe Claire; se você não tivesse feito isso, nós não conseguiríamos escapar – consolou Carlisle – Continue Edward.
- Quando a pressão voltou, os lobisomens atacaram e levaram Tia.
- Meu deus! – exclamou Esme.
- Quando nos separamos, percebemos que estávamos sendo seguidos. Tivemos que desviar uma parte do trajeto e fomos parar aqui nessa floresta, só que havia lobisomens e eles nos atacaram. Claire ficou nervosa, nunca havia lutado contra lobisomens, e tratou de tirar a gravidade, mas não só ao redor deles e sim, por quase toda a floresta – enquanto Carlisle relatava, Claire era fuzilada pelo chão – Fugimos e viemos parar aqui.
- Foi por isso que ficamos presos.
- Desculpe Edward, eu fiquei nervosa! Eles eram enormes e eu me desconcentrei. Quando percebi que tinha expandido por uma área grande demais, coloquei a gravidade de volta...
- Não se preocupe – interrompeu Edward – Então, tinha lobisomens nos seguindo também, e eles atacaram quando a gravidade voltou.
- A culpa é minha – falou Claire.
- Claro que não, a culpa é minha – remendou Benjamin, que permaneceu calado durante a conversa, olhando o chão – Eu poderia muito bem ter nos protegido, mas fiquei tão chocado que não fiz o que deveria.
- Benjamin, não se culpe. Se tivermos que culpar alguém, devemos culpar esses lobisomens.
- O que faremos agora? – perguntei com um déjà-vu; essa frase estava tornando-se um incômodo slogan.
- Temos que ir atrás de Tia, e podemos procurá-la ao mesmo tempo em que procuraremos Renesmee – disse Carlisle, e um calor subiu até minha cabeça.
- Ótima ideia Carlisle – finalizou Edward.
- Ok, obrigado por isso Carlisle e me desculpem pelo meu jeito. Eu perdi a compostura e estou envergonhado – disse Benjamin ao se levantar e ajeitar sua roupa.
- Perdoe-me Benjamin – desculpou-se Zafrina.
- Não, você fez isso para ajudar e não...
- Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Chega de desculpas – cortou Alice – Vamos nos mexer.
- Pegamos um táxi novamente? – perguntei.
- Acho melhor irmos andando mesmo. Já está ficando tarde e as pessoas estão deixando as ruas – concluiu Edward.
- Você está bem Benjamin? – Carlisle tocou em seu ombro.
- Estou. Vamos, temos duas pessoas para encontrar agora, não é?
Apesar da tentativa de animação, eu não me senti nada confortável.
As ruas estavam desertas e se escondiam debaixo da névoa que pairava por todos os lados. A lua cheia nos seguia enquanto andávamos e a quietude era um pouco alarmante, fazendo tudo isso, o clima de um filme de terror perfeito. Filme de vampiros, que máximo! Os lobisomens que levaram Tia não eram assim tão inteligentes quanto pensávamos, apenas tiveram sorte, pois seus rastros estavam por toda a parte; o de Tia, que deve ter sido levada por uns três lobisomens, estava fazendo uma trajetória curvilínea. Praticamente um ziguezague pela cidade. Essa cidade provavelmente não era mais Santiago, pois era litorânea. Descobrimos com uma placa que dizia a direção da praia. Os lobisomens estavam nos levando a algum lugar e eles eram bastante rápidos e ágeis, tenho que admitir.
- Nós poderíamos segui-los com muita facilidade – defendeu-se Alice enquanto passávamos por três casinhas amarelas, como pedaços de torta cortados, mas juntos. A floresta tinha ficado ao longe e parecia agora um bolo cor de breu achatado. As pessoas que estavam nas ruas olhavam-nos com curiosidade, porém continuamos andando e fomos esquecidos.
- É claro que poderíamos, mas Carlisle pensou a mesma coisa que eu. Isso pode ser uma armadilha – Edward falou.
- Quem quer que esteja por trás disso, pode estar usando os lobisomens como marionetes em seu plano. Devem estar pensando que correríamos imediatamente atrás de Tia e assim, eles poderiam estar nos esperando com algo, já que estaríamos tão eufóricos – completou Carlisle.
- Falou a voz da consciência e da razão – ironizou Alice.
- Argh! Cansei dessa peruca! – reclamei jogando a peruca em um tambor de lixo.
- Bella, isso é um disfarce! – disse Alice colocando as mãos na boca.
- Eles já sabem que estamos aqui, então pouco importa tudo isso.
- Urgh, certo – ela repetiu meu gesto e tirou sua peruca, jogando-a no lixo – Os aparelhos ortodônticos já eram mesmo, então não importa.
Todos jogaram suas perucas, barbas e outros adereços no lixo com muito agrado (as pessoas paravam de fazer o que estavam fazendo para apreciar nossa descaracterização; dois mendigos foram até as lixeiras e se divertiam com as perucas), menos Benjamin, que guardava a peruca de Tia como se fosse um tesouro inestimável. Edward também percebia isso mesmo sem ter acesso privilegiado à mente de Benjamin. Estava claríssimo. Quando dobramos a esquina, três táxis estavam estacionados no que parecia um ponto de táxi. Os motoristas estavam sentados em cadeiras de dobrar com um rádio ligado entre eles. Conversavam alto e nem pareciam cansados, sendo que já era bem tarde; seus uniformes estavam amarrotados e suados. Edward falou com o mais próximo, em espanhol e ele respondeu em um inglês carregado.
- Sim, eu e Sebastian falamos inglês, mesmo com nosso sotaque carregado – ele riu e apontou ao colega mais distante, que parou de conversar e olhou para nós. O outro tinha um olhar vago, com certeza sem entender nada.
- Que bom – Edward juntou as mãos – Em que cidade estamos?
- Concepción – ele respondeu com um tom de orgulho.
- Certo. Precisamos de três carros já que estamos em grande número.
- Sem problema. Para onde querem ir?
- Para falar a verdade, eu não sei dizer, só sei o caminho, entende? – Edward coçou a cabeça. Ele interpretava um humano perfeitamente. Um ator. Não, você não é um ator! Ele riu baixinho.
- Claro que entendo. Bem, podemos ir? – ele se moveu e falou em espanhol ao amigo, que aceitou o trabalho rapidamente.
Mais uma vez, tivemos que nos separar, mas o táxi em que estava eu, Edward, Alice e Benjamin, ia à frente, guiando os outros. Edward sentou no banco da frente para poder ter uma visão melhor da rua.
- Senhor, vocês não tem medo de ficar na rua até essa hora? – perguntou educadamente Edward, tentando tirar a atenção do taxista.
- Não, para falar a verdade e nem está tarde, apenas as pessoas gostam de se retirarem cedo por aqui, pelo menos as dessa rua – ele olhou um casal de idosos que estavam do outro lado da rua; a velhinha tricotando e o velhinho tocando violão – Já estou acostumado com isso, e todos dessa região nos conhecem, então, eu fico um pouco mais tranquilo. E, acima de tudo isso, eu tenho que trabalhar, não importa a hora, não é? – ele sorriu e olhou para Edward, que respirava profundamente, tentando achar o rastro dos lobisomens.
- Claro que sim – ele retribuiu o sorriso e voltou-se para a cidade que passava rapidamente – Vire a esquerda, por favor – a esquerda era uma rua que margeava a praia deserta e serena, com uma lua enorme e brilhante no seu fundo. As casas tinham ficado ao longe e a extensão da praia aumentava à medida que avançávamos.
Durante algum tempo foi assim: Alice olhando para as unhas, Benjamin olhando desesperadamente pela janela e fazendo o ar entrar no táxi com mais facilidade, o taxista perguntando se estava tudo bem, Edward guiando o táxi pelas escuras ruas chilenas e eu cogitando lugares e situações onde Renesmee estava. Essa rotina durou por mais quatorze minutos, vinte e oito segundos e setenta e sete milésimos de segundo até que o celular de Alice tocou, mas rapidamente a ligação foi cancelada. Quando ela retornou, a mensagem O celular está desligado foi ouvida por todos nós (menos o taxista, claro).
- O que será que aconteceu? – perguntou Alice.
Edward? É impressão minha ou o cheiro de lobisomem está muito mais forte?
- É verdade... – ele se virou para mim com o rosto amarrado e olhou através do vidro traseiro. Em seu rosto, o pânico, o medo e o desespero transpareceram assustadoramente.
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