23 - Vagalhão
OLHEI PARA TRÁS E CONSEGUI VER: O TÁXI QUE NOS SEGUIA, ONDE estava Claire, Jasper, Zafrina e Rose, estava inundado de lobisomens. Eles estavam por todos os lados; desde cima do carro, até presos às portas. Eles não eram tão grandes como Jacob e companhia, mas eram esguios e curvilíneos. Lobos bípedes com uma avançada coordenação motora, ou o próximo passo evolutivo dos lobos de La Push. Consegui ver o rosto de Rose, que estava no banco da frente, se petrificar e sumir, quando um dos quinze lobisomens entrou no campo de visão. Enquanto o bando tentava abrir o carro como uma lata de sardinhas, outros dois pularam na sua direção, com as garras de aço à frente, fazendo-o sair da estrada, bater numa árvore e explodir. Um deles tinha algo branco na boca.
Em meio a gritos, o nosso taxista deu uma freada brusca e manobrou o carro até que ele ficasse de frente aos restos mortais do segundo táxi. Ele nem precisou falar. O amigo dele estava morto no meio daquelas ferragens.
- Sebastian! – esperneou o taxista, com as mãos ao alto.
- Corra! Saia daqui! Rápido! - Edward disse com urgência.
O taxista abriu bruscamente sua porta e disparou na direção contrária do premeditado acidente, mas antes, titubeou em direção a massa de ferro e fogo. Corremos até bem perto do carro e lobisomens nos atacaram de todos os lados. Um enorme e preto cravou os dentes no pescoço de Edward, que puxou seu corpo, deixando somente a cabeça enterrada ali. Benjamin controlou a água do mar e empurrou os lobisomens para longe, mas, a cada lobisomem que abatíamos, dois surgiam em seu lugar. Alice corria para todos os lados, fazendo com que os desorientados lobisomens batessem um nos outros.
Consegui ver Jasper do outro lado do táxi lutando contra três lobisomens. Parte do seu rosto estava rachada, mas ele corria e esmurrava os lobos. Zafrina simplesmente ficou parada. Seu grande tamanho chamava a atenção, como uma lâmpada em que os insetos são atraídos, e os lobos, quando chegavam perto de mais, lutavam um contra os outros; projeto de suas visões. Jasper chegou perto demais dela e ficou preso em sua visão, mas estiquei meu escudo até ele e, em agradecimento, pulou num lobisomem que corria na minha direção. Estava me sentindo o dia 31 de fevereiro, totalmente inútil e inexistente, quando três lobos agarraram-me e tentaram me arrastar, provavelmente o que fizeram com Tia, mas eu consegui me desvencilhar e, segurando a cabeça de um, usei-o como bastão e o joguei contra os outros dois. Um conseguiu desviar, mas Edward o pegou e achatou-o contra o chão. Enquanto eles me agarravam, consegui ver seus olhos enormes e pretos, que transpareciam uma áurea gargântua de sangue. Um dos lobos que me atacou tinha o cheiro de Tia e Edward me olhou em concordância.
- Edward, onde está Claire? – gritou Carlisle quando apareceu, arrastando um lobisomem pelo asfalto.
- Eu não sei! – ele pulou sobre um lobo e chutou seu focinho.
- Benjamin! – foi o aviso de Carlisle. Edward e Emmett, que apareceu com um sorriso que dava para ver até de costas, voaram até Benjamin, formando um escudo entre ele e os lobos. Benjamin levantou os braços e uma rajada de vento veio do mar em nossa direção, trazendo consigo areia e pedras, que batiam nos lobisomens desavisados.
- Segurem-se! – gritou Benjamin; fechou os olhos e apertou contra o peito o último resquício da presença de Tia, sua peruca.
Uma estranha e imprópria inquietude surgiu no ar. Alcancei uma árvore e a abracei, sentindo que aquilo não ajudaria muito. Jasper que continuava estraçalhando os lobisomens correu e segurou Esme, que estava oculta por um muro, e cravou os dedos no chão. Todos os outros fizeram o mesmo, mas eu continuei pateticamente agarrada à árvore. Foi então que eu vi como tinha errado feio. Uma onda enorme, com no mínimo quinze metros, vinha em disparada em nossa direção. Parecia que uma mancha negra que corria consumindo tudo. O vento continuava a nos empurrar e os lobisomens que estavam soltos voaram para longe, fazendo-os bater em uma grossa e gigante parede de pedra de Benjamin tinha conjurado, formando uma fortaleza em forma de caixa que conteria a água que viria a escoar, e evidentemente, destruir a cidade, mas outros ainda mostravam resistência e lutavam futilmente contra o vento. O resto do carro se chocou contra a parede e pedaços de ferro retorcido voaram para todas as partes. Ali estavam vampiros agarrados ao chão e lobisomens voando. O vento redobrou sua força e todos os lobisomens estavam colados a gigante parede ao fundo. Uns tentavam sair da parede onde o impacto seria maior, mas Zafrina iludiu-os e eles, em vez de saírem pela tangente, iam mais para o centro. A areia da praia fazia uma névoa que parecia uma tempestade e tornava a visão mais difícil.
O vagalhão chegou. Quando ia derrubar Edward, Emmett e Benjamin, que continuava com os olhos fechados, ela se abriu dividindo-se, e não os atingiu (no momento lembrei-me de Moisés e o Mar Vermelho), mas definitivamente nos atingiu. Ao que me pareceu, a sua força era equivalente a de um tanque de guerra, mas não fez efeito contra nós e sim contra os lobisomens. A onda bateu e os empurraram contra a parede que nem ao menos tremeu; seus corpos foram dilacerados. A árvore em que eu estava agarrada tinha sido arrancada junto com todas as outras e eu bati na parede do fundo com tanta força que senti minha cabeça rachar literalmente.
A água é um elemento incrível. É tão... frágil, nem parece ter um poder tão grande. É maleável e bastante refrescante, mas depois do que eu a vi com aquela fúria, nunca mais a subestimarei. A água, quando entram em estado de agitação intensa, ímpeto de violência ou furor e encontra águas igualmente nervosas, fazem um colapso tão destruidor que deve ser temida até mesmo quando é apenas uma simples e inocente gota d’água.
Depois de retornarem ao mar, o rastro de sua força era altamente visível. Árvores estavam tombadas (a que eu agarrara estava partida ao meio; não sei se foi do impacto ou eu que a apertei demais), uma montanha de lama cobria todos nós, e o táxi agora virara apenas cacos negros espalhados aleatoriamente pelo chão e enterrados na lama. Pedaços de lobisomem estavam em todos os cantos, inclusive no cabelo de Rose, que estava mais perto da parede, e no meu.
- Argh! Tire isso do meu cabelo! – gritou Rose enquanto se levantava ensopada. Levantei-me com dificuldade e corri até ela; um dedo estava preso em seus cabelos – Obrigada Bella – disse ela com cara de nojo – Enquanto eu viver vou lembrar-me do dedo de lobisomem no meu cabelo. Deixe-me tirar os restos do seu – ela apalpava meu cabelo e tirou algo que eu preferi não saber o que era. Nossos cabelos estavam com um cheiro insuportável.
- Se vocês estivessem usando as perucas, seus cabelos tinham sido poupados – gritou Alice enquanto se levantava – Minha roupa está arruinada – era verdade; não só estava totalmente molhada como tinha um rasgo enorme – Lobisomens idiotas.
- Aposto que os vampiros que estiverem na Oceania conseguirão sentir o cheiro de lobisomem que essa água está levando – brincou Emmett, que estava totalmente seco. Parecia que apenas tinha sido pego pelo vento. Edward e Benjamin também estavam.
- Invejo você agora Emmett – eu constatei – Queria estar seca.
- Nem me fale! – falou Rose.
- Tudo bem com todos? – perguntou Edward arrumando os cabelos.
- Tudo, eu acho. Mas onde está Claire? – Carlisle olhou para os lados mesmo sabendo que ela não estava aqui; pelo menos, não dentro dessa caixa gigante – Benjamin, obrigado, mas agora você pode descer esses... muros?
- Claro Carlisle – Benjamin apenas levantou a mão e as gigantes paredes desceram ao chão, com um ruído estranho, como se nunca tivessem existido. O resto da cidade estava intacto, como se não tivéssemos passado por ali.
- Alguém pode me dizer o que aconteceu? – reivindicou Edward.
- Não sabemos, estávamos seguindo seu táxi quando algo fez o carro balançar. Quando olhamos, os lobisomens saíram do nada e pularam no carro. Ai aconteceu o que vocês viram – explicou Rose.
- Não aconteceu nada com o nosso táxi. Vimos os lobisomens escondidos e pedimos para o taxista desviar do caminho, por isso demoramos um pouco – ofegou Jasper, abraçada a Esme – Vocês nem queiram saber como era o temperamento deles...
- Eu estou vendo. Apenas sangue e morte. E Claire?
- Não sabemos Edward. Ela estava no bando traseiro, do lado esquerdo... – falou Zafrina.
- O lado que os lobos atacaram quando empurraram o táxi? – averiguou Edward.
- Exatamente – concluiu Zafrina.
- Humm. Eu acho que a consciência deles é diferente na forma de lobisomem.
- Ou seja: zero! – ralhou Alice olhando para sua blusa e ajeitando os cabelos.
- Intrigante – completou Carlisle.
- Ufa! Não sou a única pessoa com problemas com lobisomens aqui, não é? – falou Alice, jogando as mãos para o céu. Nele havia uma nuvem enorme que encobria a lua e, a uns três quilômetros, uma nuvem de fumaça subia ao céu, exatamente como um enorme dedo apontando um sinistro lugar. Não dava para ter certeza, mas eu achava que a cor da fumaça era um símbolo que não era oportuno naquela hora: um roxo penetrante e escuro.
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