15 – Inodoro
BENJAMIN PAROU DE FALAR E OLHOU PARA AS NUVENS NEGRAS. Incrivelmente, ele estava afastando-as de cima da nossa casa, fazendo o vento empurrá-las para longe. Um sol que eu não via fazia dias apareceu e fez Benjamin brilhar radiantemente.
- Cansei de chuva – ele falou. Suspirei de alívio. Parecia que Benjamin tinha lido meus pensamentos.
Fui caminhando vagarosamente até a janela. Queria sentir cores, ver cheiros que não seja de chuva. Eu queria voltar a viver, ou pelo menos tentar. Sentir o sol em minha pele e ver cada célula devolvendo gentilmente essa luz era... sublime. Passei a mão em meu braço direito, tentando absorver aquela sensação de calor que era tão afável.
- Olhem para cima – falou Benjamim, ainda parado a janela – As árvores. Elas estão sussurrando e sorrindo. Estão dizendo que o vento faz cócegas enquanto as lambe. Também estão reclamando das suas raízes – ele olhou para baixo – Dizem que elas não sabem para onde crescer – engraçado, mas eu quase conseguia escutar.
- Você consegue falar com elas? – perguntou Carlisle.
- De certa forma, sim. A Terra é um organismo vivo e muito poderoso. Vocês viram o que aconteceu no Haiti, não? – todos nós vimos o horrível terremoto que aconteceu há poucos dias – Aquilo não foi nem um quarto do que a Terra pode fazer. Os homens vêm destruindo-a há séculos, e ela está irritada. Está se contorcendo, vamos assim dizer. E, não importa o que aconteça, ela vai se voltar contra nós.
- Você não pode pará-la?
- A Terra é muito grande, não seria possível refreá-la. Nem humanos nem vampiros existiriam se continuarmos desse jeito. Todos nós estaremos acabados.
Estaremos? Eu já estou acabada há mais tempo que gostaria.
De repente senti o cheiro de um humano chegando perto. O sangue martelava compulsivamente contra as paredes de suas veias. Eu sei; nossa reputação de “discretos” fazia qualquer um ter uma pontada sequer de nervosismo ao chegar perto da nossa casa. As copas das árvores próximas formavam longas sombras que cobriam Carlisle e o impossibilitava de brilhar na frente do carteiro.
- Bom dia, Sr. Cullen? – falou o carteiro quando Carlisle abriu a porta. Seu rosto estava um vermelho berrante.
- Isso mesmo.
- Assine aqui, por favor – ele entregou uma caneta, um pacote (provavelmente o sapato que Alice comprou pela internet há duas semanas) e uma prancheta com as mãos tremendo muito; parecia um ataque epiléptico – Que estranho, há cinco segundos estava tão escuro, e veja agora! Sol! Que bizarro, não? – ele enxugou o suor que descia com um lencinho azul; era até engraçado sua tentativa de se enturmar.
- Muito – Carlisle sorriu e olhei para Benjamin que também ria.
- Aqui. Obrigado – conseguimos até ouvir um suspiro quando Carlisle fechou a porta. Ele virava a carta com uma expressão esquisita.
- Como assim, Carlisle? – perguntou Edward.
- Eu sei, é estranho, mas não tem nenhum remetente.
- Humm, é realmente estranho. Mas, abra-a.
Carlisle abriu a carta com uma velocidade incrível. Parecia até que ela já veio aberta. Em exato setenta e quatro milésimos de segundo depois de aberta, um cheiro, que emanava de dentro do envelope, consumiu todo o ar em volta. Eu sonhava tanto com aquele cheiro, que eu conseguia vê-lo. Ele estava em cada pensamento meu, cada respiração, cada movimento, cada lembrança e em cada esperança. O cheiro de minha filha.
- Renesmee! – fez-se um coro na sala. - Minha filha! – corri e peguei o envelope da mão de Carlisle, sem me importar em ser educada. Tinha um pequeno pedaço de papel escrito à mão
- Como assim? – Edward flutuou para o meu lado.
- Está escrito aqui. “No Chile”!
- O que isso quer dizer?
- Não é claro, Rose? Nessie está no Chile! – concluiu Esme. Minha cabeça deu um giro de trezentos e sessenta graus. Sinapses explodiam em meu cérebro e mil imagens vieram em minha mente.
- Que gritaria é essa to...? – Jacob, que estava entrando pela porta, nem terminou a frase. Era óbvio que ele sentira o cheiro de Renesmee no ar – Onde ela está?!
- Ela não está aqui, Jacob – respondeu Carlisle – Chegou uma carta com o cheiro dela...
- Estão pedindo um resgate? – apesar dessa conclusão não ser tão feliz, a cor de Jacob começou a voltar.
- Não – eu falei – Só tem escrito “No Chile”
- Chile? Ela está lá?!
- É o que vamos descobrir – pronunciou-se Edward.
- Nós vamos até lá? – investiguei.
- Claro que vamos!
- Edward – falou Alice – Isso pode ser uma armadilha.
- É verdade Edward, mas é claro que não podemos ficar aqui parados.
- Isso, Carlisle! – Emmett sempre gostava de confusão.
- Ok, o que vamos fazer? – perguntou Claire.
- Bem, vamos para lá. Certo? – Carlisle olhou em volta, mas ninguém precisa concordar – Nós não podemos simplesmente ir. Tempos que tomar cuidado, podem estar nos vigiando. Temos que ir discretamente...
- Mas tem vários meios de nos encontrarem, mesmos se estivermos disfarçados. Eles podem simplesmente ver a lista de passageiros, nós vamos de avião, claro. Temos que não ser nós, entendem?
- Eu estou entendendo, Alice. Continue.
- Bem, eu tenho uma ideia...
Todos se voltaram para mim. Edward, lendo meus pensamentos e Alice, provavelmente vendo o futuro, abriram um sorriso que estava enterrado há séculos. Eu realmente não sabia se isso ajudaria, mas não poderia ficar parada, tão passiva. Não conseguia pensar em outra coisa e essa minha ideia estava pairando por minha cabeça há tanto tempo, não pela causa agora expressa, e sim por pura... nostalgia. Minha ideia tinha se passado há tanto tempo que a nostalgia era iminente. Era até divertido pensar em voltar aquele lugar. Tia, que permanecia imóvel e calada, virou-se com interesse para mim. Foi Alice que pronunciou minha ideia.
- J!
Eu estava até me acostumando com esse gosto insípido das coisas, essa cor pálida, esse processo inodoro. É incrível como você pode acostumar-se com coisas infundáveis e inimagináveis ao longo do tempo, mas uma letrinha poderia mudar tudo, em tese.
Amo essa elaboração...continuem assim gente!
ResponderExcluirEstou divulgando a saga..vamos conseguir aumentar esse público!
bjs.
Obrigado Alciele! E continue divulgando, quanto mais pessoas souberem da verdade, melhor. E você não perde por esperar a capa de Solstício (surpresa!)
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